Exposição de presépios no Centro de São Paulo

O presépio como representação do nascimento de Cristo tem tudo a ver com os franciscanos. Foi São Francisco de Assis, em 1223, na cidade italiana de Greccio, quem pela primeira vez na história celebrou a noite de Natal com uma encenação plástica do nascimento de Jesus, tendo pessoas representando os personagens bíblicos e animais reais na manjedoura. Com isso, ao longo dos séculos, tornou-se uma tradição entre os franciscanos marcar a passagem do Natal sempre de forma artística, e não apenas litúrgica, com a montagem de presépios com seres vivos ou esculturas.
No Centro de São Paulo, há mais de 20 anos essa tradição é ininterruptamente mantida pelo Convento São Francisco de Assis, no Largo São Francisco, São Paulo.
“A arte na religião católica é uma força que evangeliza, ajudando tanto na catequese como na aproximação do homem com o que é belo”, explica frei Roger. “Quando fazemos aqui os 21 anos dessa mostra de presépios, procuramos oferecer uma forma diferente de celebrar o Natal e, ao mesmo tempo, resgatamos uma tradição cristã.”
Entre os presépios expostos este ano 20 são inéditos. E entre estes há exemplares do Oriente Médio, Peru, Rússia, Filipinas, Argentina, Bélgica, Egito, Angola e Alemanha. Os materiais utilizados são os mais diversos: chumbo, madeira, marfim, fibra de bananeira, bambu pintado, argila e impressão. Um deles foi feito pelo artesão Adelino, de Guarulhos, que fez questão de expor com os franciscanos de São Paulo e trabalha com materiais reciclados. “Acolhemos com carinho, porque tem tudo a ver com o espírito franciscano, que é ecológico”, diz frei Roger.
Hoje os franciscanos têm no Estado de São Paulo uma coleção de cerca de 400 presépios, iniciada com aquela de Ottenbreit, a maioria doada. Ela fica no Seminário Frei Galvão, em Guaratinguetá, cidade onde há uma exposição permanente de presépios.´
[Ana Maria Ciccacio, texto abreviado].
Fotos: Presépios - Renato Leary, presépios vindo do Oriente Médio, exemplar esculpido em madeira e com destaque sobre banquetes rústicos.

Eden Magalhães e Antônia de Mello
com D. Erwin Kräutler
 Alegria e Pólvora
Em Estocolmo, no Parlamento da Suecia, realizou-se, no dia 6 de dezembro 2010, a 31ª entrega do Prêmio Nobel Alternativo (31st Right Livelihood Award Ceremony). Na cerimônia, deputados desse Parlamento apresentaram os candidatos ao público e se manifestaram simpáticos para causa dos premiados. Em seus discursos, os homenageados (ver postagens anteriores) pronunciaram mensagens muito idênticas em torno das grandes causas do mundo e do sofrimento dos seus povos:
- Ruchama Marton, de Israel, declarou que não é suficiente combater o machismo. Precisa mudar o mundo para mudar a discriminação das mulheres.
- Shree Krishna Upadhaya, de Nepal, ao finalizar a sua fala, citou Nelson Mandela: “A superação da pobreza não é um ato de caridade, mas um ato de justiça”.
- O Nigeriano Nnimmo Bassey se apresentou: “Eu estou diante de vocês não por uma causa individual, mas como um representante do povo sofrido nos campos de petróleo da Nigéria [...]. É claro, que para os níveis atuais da extração de petróleo, da acumulação e do consumo, a ética deve ser revisada e a impunidade deve ser destronada. [...] É a coragem das comunidades sofridas e dos povos resistentes contra a extração destrutiva que sustentam a nossa luta”.

Paulo Suess e D. Anders Arborelius
 - D. Erwin Kräutler, presidente do Cimi e bispo do Xingu, lembrou em seu discurso os assassinatos da Ir. Dorothy Stang (2005) e de Ademir Alfeu Federicci, o Dema, ambos vítimas de uma ocupação fraudulenta das terras da Amazônia; ambos voz de pequenos agricultores sem voz. D. Erwin denunciou a impunidade dos crimes, apontou para os prejuízos apocalípticos de Belo Monte, lembrou o tráfego de menores, chamou à atenção para a situação insustentável dos Guarani-Kaiowá, do MS, e para a destruição da Amazônia.
Leia o discurso de Dom Erwin Kräutler, proferido no dia 6 de dezembro de 2010, pela ocasião da entrega do Prêmio Right Livelihood 2010, em Estocolmo, Suécia:
(Foto acima: No Metrô, conversando com o arcebispo de Estocolmo sobre a situação dos Sámi)


Protesto dos Sámi na Finlândia

Família Sámi

No dia 7 de dezembro participamos (Eden e eu) de uma pequena recepção na Embaixada da Áustria, em Estocolmo. Ao meu lado, o único bispo católico da Suécia, o carmelita Anders Arborelius, responsável pela imensa diáspora de um país. Perguntado sobre eventuais conflitos étnicos em seu país, ele me fala dos conflitos com os Sámi (Samit, Samek). Os Sámi são uma minoria indígena transnacional de umas 40 mil pessoas. Vivem na Finlândia, Noruega e Suécia. Sofrem pela redução dos seus territórios, pela exploração de suas águas e minérios.

Bandeira Sámi

Desde 1956 existe um Conselho Sámi Nórdico que articula reações coletivas contra os três estados nacionais que ocupam hoje seus territórios. Suécia não assinou a Convenção 169, da ONU. Nenhum partido os defende, nem a simpática Rainha os afaga. Contradições de um país, no qual agradecemos o Prêmio Nobel da Paz ao inventor da pólvora.
[P.S., 8.12.2010]
Calendário do Advento:
o profeta Pedro, a sábia Genoveva, o confessor Erwin
Um calendário do Advento tem 24 janelinhas que conduzem crianças e adultos ao presépio. Nosso calendário tem apenas três janelas. Assim podemo-nos debruçar oito dias sobre cada uma dessas figuras que, através da janelinha, olhem para nós: o profeta Pedro, a sábia Genoveva e o confessor Erwin.
Primeira janela: Dom Pedro
Faz poucos dias que visitei com companheiros do Cimi o profeta Pedro, o grande e frágil D. Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Felix do Araguaia, entre 1971 e 2005. Para o dia de sua ordenação episcopal escreveu uma carta pastoral que marca o início da pastoral social no Brasil: “Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”, segundo José de Souza Martins, um dos mais importantes documentos sociais da história contemporânea do Brasil. Homens como Pedro, que era um dos pais-fundadores do Cimi e da CPT, nascem só uma vez em cada século. A ele pertence a primeira janelinha do nosso calendário.
No dia da nossa visita (27.11.), Pedro estava em Goiânia, onde se recuperou de uma cirurgia. Magrinho e lúcido, como sempre, quase levitando. Falamos das eleições de Haití, da Agenda Latino-americana, da Romaría dos Mártires (16/17.07.2011) e do “bem viver”, do mundo andino. Estávamos chegando de um Seminário Nacional do Cimi sobre o mesmo tema.

Segunda janela: irmã Genoveva
Na mesma tarde visitamos ainda a Ir. Genoveva, das Irmãzinhas de Charles de Foucauld. Ela vive desde 1952 com os Tapirapé, um povo, que na época era reduzido a 50 indivíduos. „Depois do roubo de suas terras, os índios trabalhavam nas fazendas da região de São Felix. Pela presença de Ir. Genoveva e de suas companheiras, o povo reconstruiu seu habitat e recuperou a esperança em seu próprio futuro. O Cimi, que nasceu só vinte anos mais tarde, agradece muito às irmãzinhas dos Tapirapé. Sua missão não era supervisão ou conversão de pagãos, mas inculturação e diálogo de vida. Numa entrevista de 1984, Genoveva respondeu à pergunta sobre seu aprendizado com os índios: “Aprendi a vida prática. Aprendi a viver em comum, partilhar. A vida comunitária na tribo era mais radical que na Congregação. [...] Nossa preocupação é viver sem criar muitas coisas diferentes. O normal é viver até morrer com eles. Minha atividade na aldeia é a roça.” Quem olha no rosto de Genoveva e de Pedro, ambos com mais de 80 anos de vida, encontra sulcos profundos, nos quais a semente do evangelho está brotando. não vai substituir”. Wenn Du schon korrigierst, dann vielleicht auch, bei Genoveva ersetzen

Terceira janela: Dom Erwin
Escrevo essa postagem a caminho de Estocolmo, capital da Suecia, onde Dom Erwin Kraeutler, no dia 6 de dezembro, vai receber o Prémio Nobel Alternativo. D. Erwin é presidente do Cimi. Toda a sua vida lutou pelos pequenos, pelos índios, pelos menores abusados muito além de sua Prelazia de Xingu, PA. Seu caminho para Estocolmo é marcado por muito sofrimento. Em 1983, por causa de sua participação numa ação solidária com cortadores de cana-de-açúcar apanhou duramente da polícia militar; em 1987, D. Erwin sobrevive uma tentativa de mata-lo com um carro blindado; em 1995, um irmão de sua congregação, Hubert Mattle, é assassinado na sede da prelazia, em Altamira, e em 2005 mataram uma de suas agentes pastorais mais autênticas, a irmã Dorothy Stang. Por causa de ameaças concretas de assassinato, D. Erwin vive alguns anos, dia e noite, protegido por dois policiais. O Prêmio Nobel Alternativo não vai substituir o colete à prova de bala, que ele é obrigado a vestir, mas, quem sabe, pode se tornar uma capa de proteção da opinião pública, que agora zela mais vigilante por suas e nossas causas.
III. Seminário de Formação do Cimi - 2
“Bem viver, desenvolvimento, governos de esquerda”

No penúltimo dia do encontro (24.11.2010), os participantes acompanharam exposições de pesquisadores e acadêmicos sobre Estado e Poder e os Governos de esquerda na América Latina. Movimentos sociais, Estado Nação, poder e bem viver indígena. Estes termos nortearam as discussões do penúltimo dia do Seminário do Cimi, que aconteceu em Luziânia-GO. Com as contribuições de Lino João, César Sanson, Pablo Dávalos, Cacique Babau e Maurício Guarani, os participantes discutiram “Estado e Poder”, os “Governos de esquerda na América Latina”, e as “Experiências indígenas do bem viver”.
César Sanson, pesquisador do CEPAT e parceiro do IHU, depois de fazer todo um apanhado sobre as crises energéticas, as crises ambientais, mudanças climáticas, ressaltou que os governos ditos de esquerda são sim grandes aceleradores desse modelo neo-desenvolvimentista. Cesar destacou que governos dos países latinoamericanos assumiram a heranöa do modelo desenvolvimentista dos anos 1950.
Se nas décadas de 1980 e 1990 o modelo neoliberal liderava com privatizações, reforma das instituições, capital internacional, campanha para que os países se inserissem no processo de globalização, os governos de esquerda da A.L. se elegeram contra esse processo com grande apoio dos movimentos sociais.
Segundo Sanson, os governos existentes hoje na A.L. são neo-desenvolvimentistas. “O papel do Estado é alavancar o desenvolvimento. Para isso ele aparece em três facetas: o Estado investidor, financiador e o Estado social”. O Estado banca grandes obras para alavancar o desenvolvimento, financiando para a exploração do capital privado; ele financia a fusão de grandes conglomerados para competir com empresas transnacionais e elabora programas sociais compensatórios, por exemplo o bolsa família.
Esse modelo cria tensões com os movimentos sociais. Sanson destacou que os indígenas são grandes entraves a essa lógica e por isso são tão perseguidos. “Os movimentos sociais em geral não podem se deixar iludir: a inclusão social não pode vir do consumo, mas da resolução de problemas”, declarou.
Ainda nesta discussão dos Estados Latino Americanos, o economista Pablo Dávalos destacou que poucas vezes na história houve tantos estados partilhando da mesma concepção. “É a mesma dinâmica de acumulação capitalista!”, afirmou. Mas para compreender como a A. L. chegou a essa situação, Dávalos voltou aos anos 1990, e destacou a forte atuação dos movimentos sociais em toda a América Latina. “Foram esse movimentos que derrotaram o neoliberalismo! E os partidos políticos se valeram desta energia dos movimentos para se elegerem.”, lembrou.
O economista também mostrou que os movimentos sociais foram se calando, se paralisando, após as eleições dos chamados partidos de esquerda. “Precisamos encontrar o fio de Ariadne para sairmos deste labirinto e recuperar a agenda dos movimentos sociais!”, finalizou.
Na tarde de ontem (24), dois indígenas puderam relatar suas experiências de Bem Viver. Os povos indígenas têm sua maneira própria de viver que foge da lógica do consumismo, das violências, do desrespeito à natureza, e faz com que sejam exemplos vivos do que se pôde entender nesses três dias de seminário sobre Bem Viver.
Rosivaldo Ferreira da Silva, mais conhecido como cacique Babau do Povo Tupinambá da Serra do Padeiro, relatou sua vida em comunidade, seu costumes, a forma de economia e de preservação da cultura e da memória dos antepassados de seu povo. Para ele, muito das violências que seu povo sofre é pelo fato de serem alegres, felizes e viverem em harmonia, o que revolta os fazendeiros, os depredadores da natureza, os representantes do capital. “Em nossas terras, não há violência doméstica, respeitamos a natureza, temos sistemas de roças comunitárias, aprimoramos a comercialização de nossos produtos em parceria com a nossa associação! Temos muita fartura, porque ninguém pode ter dignidade passando fome! Fazemos coleta seletiva, produzimos excedente como reserva, caso haja algum imprevisto”, relatou. Babau mostrou como respeitam a terra e os ciclos de vida. “Nosso modelo de vida é estável, a gente ri, é alegre, é feliz, a gente faz muita festa! Temos vida e vida com felicidade!”.
Segundo Babau, esse modo de vida causa incômodo e é por isso que muitos já tentaram subornar a comunidade para abandonarem a terra, mas o povo não aceitou e isso desesperou os inimigos.
O jeito guarani
Depois dos relatos de Babau, foi a vez de Maurício da Silva Gonçalves, liderança Guarani, falar do que é o Bem Viver para seu povo. “Antes do branco chegar a gente tinha o bem viver completo: tínhamos casa, caça, peixes, frutas nativas. Tínhamos o jeito de ser guarani. Mas quando o branco “descobriu” o Brasil, perdemos todo o nosso território!”, lembrou.
De acordo com Maurício, o povo Guarani perdeu todas as suas terras e é por isso que se vê o drama desse povo hoje. “A nossa grande luta é pelo reconhecimento de nosso território. A mata Atlântica, por exemplo, é território Guarani, e se estendia até Argentina, Paraguai”. Maurício destacou que o povo Guarani não tinha limites, não reconhecia o que era fronteira e até hoje esta memória é importante para dar forças nas lutas Guarani.

Na escuta da Palavra
 Os anciãos Guarani, segundo Maurício, ainda não conseguem entender a organização dos brancos, o fato de haver Grupos de Trabalho para a identificação de terras, laudos antropológicos. “Para eles é muito complicado entender que antes era tudo nosso e agora precisa de estudos para provar isso!”, ressaltou. “Como é que se vivem 200 pessoas em 7 hectares? Não dá nem para fazer casa de reza!”.E as grandes plantações são as invasores dos territórios guarani. “Quando não é soja, é plantação de cana que ocupa a nossa terra!”.
Maurício relatou que hoje a grande luta do povo Guarani é para conseguir seus direitos. “A lei garante nossas terras, mas isso não garante nada na prática. Nossas famílias vivem na beira das estradas, debaixo de lona. Os fazendeiros não querem nem que os indígenas fiquem perto de suas cercas. Guarani não existe mais, porque não temos terra, não podemos plantar!”, ressaltou. Ou seja, a terra é o principal fator que falta para que o povo Guarani retome o seu jeito de ser, seu Bem Viver (cf. http://www.cimi.org.br/).
Foto à direita: Babau recebe um telefonema da sua irmã da Bahia dando a boa notícia que as pessoas responsável pelo seu tempo na prisão (segurança máxima) agora são presos. Paulo Suess põe a bíblia no ouvido, o telefone da boa notícia.
III. Seminário Nacional de Formação do Cimi:
“O sonho e a realidade do `bem viver´
frente ao modelo de desenvolvimento”
(22-25.11.2010, Brasília)
No Seminário Nacional do Cimi, o núcleo central da reflexão é o “bem viver”, o sumak kawsay dos povos andinos. Veio do Equador o economista e assessor do movimento indígena, Pablo Dávalos, para explicar aos mais de 100 participantes do “Seminário de Formação” esse novo paradigma político que visa cinco rupturas profundas com o sistema do capitalismo tardio em curso.
1. A ruptura constitucional e democrática, para sentar as bases de uma comunidade política inclusiva e reflexiva, que aposta à capacidade do país para definir outro rumo como sociedade justa, diversa, plurinacional, intercultural e soberana.
2. A ruptura ética para garantir a transparência que favorece o reconhecimento mutuo entre as pessoas e a confiança coletiva.
3. A ruptura econômica para superar o modelo de exclusão herdado e para orientar os recursos do Estado para a educação, saúde, investigação científica, tecnologia. Essa ruptura deve concretizar-se através da democratização do acesso à água e terra, ao crédito e conhecimento.
4. Ruptura social para que, através de uma política social articulada a uma política econômica inclusiva e mobilizadora, o Estado garante os direitos fundamentais.
5. Ruptura pela construção de dignidade, soberania e integração latino-americana.
O “sumak kawsay” propõe a incorporação da natureza na história, não como fator produtivo nem como força produtiva, mas como parte inerente ao ser social. Os seres humanos fazem parte da natureza. Como princípios e imperativos, o bem viver exige priorizar a vida, construir o consenso; respeitar as diferenças como complementaridade; levar uma vida equilibrada com todos os seres dentro de uma comunidade e com a natureza, escutar os anciãos.
O cristianismo compreende o bem viver como um bem viver do outro. Lutamos como servos para que ninguém precisa ser servo. Anunciamos o Reino de Deus como libertação da servidão, nos fazendo servos de todos.
Como cristãos podemos compreender a vida boa para todos como sabedoria do Reino de Deus que exige a luta e a contemplação. Essa contemplação nos conduz à ascese que liberta do supérfluo, para que todos possam ter o necessário. Ascese é o protesto contra nossa humilhação como consumidores e contra a exploração e a fome dos outros. O motivo profundo de ascese é solidariedade e participação. Ascese em sua forma individual pode significar conversão e ascese em sua forma comunitária e sociopolítica significa ruptura sistêmica e solidariedade. O bem viver para todos e para sempre, que é memória dos mártires e confessores, existe no horizonte da ressurreição.

Viva a Sociedade Alternativa - Raúl Seixas

Simpósio missiológico: "Vida boa – para todos?”

Entre os dias 18 e 19 de novembro 2010, realizou-se na Universidade de Innsbruck, Austria, um Simpósio Missiológico com a temática: “Vida boa – para todos?”.
Ser feliz, como indivíduo, e viver bem, como ser social em família e sociedade são duas tarefas conjuntas que procuramos cumprir em nossa vida. Parecem duas tarefas contraditórias. No centro da primeira está a felicidade própria do indivíduo, o núcleo da segunda é a moral da sociedade, os costumes e prescrições da cultura, a virtude e a lei da sociedade com seu imperativo categórico. Temos exemplos históricos que mostram, que é possível esmagar o indivíduo pelo coletivo como tempos exemplos do contrário que nos mostram como o indivíduo com sua igualdade e liberdade, que são grandes e perigosas conquistas da modernidade, se impõe à coletividade através de privilégios herdados ou prestígios sociais conquistados. Praticamente todas as lutas sociais representam tentativas de equilibrar felicidade individual e moral social.
O evento foi organizado pelo “Instituto de Teologia Prática” da Faculdade de Teologia Católica (www.uibk.ac.at/praktheol).
A palestra de Paulo Suess sobre ”Teses, experiências e questionamentos para a contribuição de Igrejas e religiões ao bem viver de todos” norteou o Simpósio e seus círculos de discussão. O Simpósio, organizado por ocasião da aposentadoria do titular da cadeira de Teologia Pastoral, professor Dr. Franz Weber, e para homenagear o titular anterior, professor Hermann Stenger, que alcançou, nessa data, com boa saúde seus 90 anos de idade, reuniu praticamente todos os professores de Pastoral e Missiologia de língua alemã.
Para nós, da Escola Missiológica de São Paulo, foi um reencontro particularmente grato. Não só o jubilar, Franz Weber, estudou um ano conosco. Também Franz Helm, que se doutorou com um trabalho sobre Ricci e Acosta (comparação de dois catecismos) em São Paulo, maracou presença e coordenou um dos Workshops. Também o professor Johannes Meier, Mainz, que administrou um curso na então Missiologia da Assunção, se fez presente.
Foto: Missiologia de São Paulo encontrou-se em Innsbruck - Franz Weber, Paulo Suess, Franz Helm.
Mês Missionário 3
Eis a nossa missão:
Anunciar outro mundo
Construir outra globalização:
Com novo pano de fundo
Conectando conectados
Em rede, tapete, mutirão.

Caminhando para Aparecida do Norte

4. Nossa Senhora da Imaculada Conceição Aparecida

A imagem original de Nossa Senhora Aparecida é uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que precede por muitos séculos a proclamação do dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria. Três pescadores encontraram, no dia 12 de outubro de 1717, uma imagem de barro cozido no rio Paraíba. Levaram a imagem para casa, onde atraiu devotos e operou milagres. No decorrer dos anos, muitas graças foram alcançadas pelos devotos da “Cidinha”, como carinhosamente é chamada.

Em muitos lugares do mundo se conta histórias semelhantes da origem humilde de uma devoção ou aparição de Nossa Senhora. Depois, quando o movimento cresce, a classe dominante percebe o alcance político do fenômeno religioso, manda construir capelas cada vez maiores, Igrejas e Basílicas. Inicia-se um processo de embelezamento dos fatos e das imagens e a integração na religiosidade oficial. Assim a pobre virgem de Nazaré se torna rainha dos cristãos. O povo gosta dessa ascensão social de suas devoções, sem considerar uma ameaça de seu protagonismo e imaginário religioso.

Meio ano depois da assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888, que aboliu a escravatura, a Princesa Isabel visitou a basílica e ofertou à santa uma coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, juntamente com um manto azul, ricamente adornado. Seis anos mais tarde, em oito de setembro de 1904, a imagem foi coroada. O evento contou com a presença do Núncio Apostólico, bispos, o Presidente da República Rodrigues Alves e muitos fieis. Em 16 de julho de 1930, por decreto do papa Pio XI, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira Oficial. Durante a ditadura militar, em 30 de junho de 1980, o dia 12 de outubro foi decretado oficialmente feriado. Em 1980, João Paulo II, e em 2007, Bento XVI visitaram Aparecida. O “Documento de Aparecida”, resultado da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, de 13 a 31 de maio de 2007, levou mito e realidade, graça e grandeza de Aparecida até os confins do mundo católico.
Entre a “Madona Negra”, a “Imaculada” e a “Aparecidaexistem diferenças e semelhanças. A festa da Imaculada é celebrada 8 de dezembro e a festa da Aparecida, 12 de outubro. A “Madona Negranão tem data determinada. A “Imaculada”, geralmente, é branca e sem filho. A imagem da “Aparecida” é também sem filho, mas negra. A “Aparecidaintroduziu a negritude naImaculada” e a “Imaculadaintroduziu a pureza naAparecida”. A “Aparecidatem a cor em comum com a “Madona Negra”. Mas o triunfo da “Madona Negra” é o filho. A “Imaculadaespiritualizou o filho. Se a “Virgem Imaculadafoi redimida por Cristo de maneira preventiva, a sua mera existência de “Imaculadapressupõe sempre o “Filho Redentor”.

Que a festa da “Cidinhanos faça lembrar, que sua imagem de barro cozido e escurecido pela longa permanência nas águas do rio Paraíba, não foi encontrada num berço esplêndido! Desde as profundezas das águas da nossa realidade e do nosso imaginário, onde convivem pobreza e realeza, Nossa Senhora Aparecida é nossa intercessora, nos convoca e envia - a serviço do Reino. O gritoViva Nossa Senhora Aparecida!” nos lembre da mobilização continental do 12° Grito dos/as Excluídos/as, que se realiza nesse mesmo 12 de outobro sob o lema "Trabalho, Justiça e Vida". Para mais informações, acesse: http://www.gritodelosexcluidos.org

Caminhando para Aparecida do Norte

3. Contexto do dogma da Imaculada Conceição

Aparecida do Norte é um santuário de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Sua devoção é antiga, sua teologia era controvertida (entre Duns Escoto e Tomás de Aquino), seu dogma é recente.

Em 1823, na viagem de ida ao Chile, onde estaria por dois anos a serviço da nunciatura apostólica, o jovem sacerdote Giovanni Mastai-Ferreti, que 23 anos mais tarde seria eleito papa Pio IX (1846-1878), atracou com uma comitiva de religiosos por alguns dias no porto de Santos, SP. No dia 8 de dezembro, participou de uma procissão popular da Imaculada, que o impressionou. Em 1854, portanto 31 anos mais tarde, Giovanni Mastai-Ferreti, agora já como papa Pio IX, proclamou em Roma o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria.

O pontificado de Pio IX era um pontificado de um perdedor vitorioso. Perdeu os Estados Pontifícios contra as forças progressistas, liberais e nacionais que lutavam pela unificação da Itália. Mas, ele compensou as perdas territoriais com vitórias ideológicas no campo religioso, onde proclamou os dogmas da Imaculada Conceição e da infalibilidade papal, condenou os erros do mundo moderno (Sílabo, 1864) e convocou o Concílio Vaticano I (1870). Na definição do dogma da Imaculada conciliou posições teológicas controversas. Confirmou, que Maria é imaculada, isenta de todo pecado. Mas, como se relaciona essa isenção com a necessidade de redenção? Maria tinha ou não tinha necessidade de ser redimida do pecado original por Cristo? Aí o dogma responde: a Virgem Maria foi redimida por Cristo de maneira preventiva, em previsão de seus méritos.

Assegurada a doutrina da Imaculada, Pio IX partiu para o ataque contra os “maculados”, articulando a força da argumentação teológica e da religiosidade popular contra posições políticas da sociedade secular, influenciadas pela Revolução Francesa (1789) e o Manifesto Comunista (1848). Em 1848, o papa teve que fugir de Roma. Quando voltou, dois anos mais tarde, com a ajuda de tropas franceses, Roma já era capital de uma República em processo de unificação. Até o fim de sua vida, Pio IX defendeu a tese, que a Imaculada legitimava sua luta contra todos os setores modernos, que se acreditavam imunes da mancha do pecado original, da qual só uma criatura foi preservada, Maria da Imaculada Conceição.

Caminhando para Aparecida do Norte

2. Da Mãe Preta à Madona Negra de Aparecida

Nossa Senhora de Aparecida, a Madona Negra do Brasil, tem uma proximidade muito grande e legítima com os afrodescendentes, mas a sua origem está num contexto arquetípico mais amplo e remoto. O mundo inteiro – de Charters (França) até Guadalupe (México) - conhece madonas negras, que originalmente substituíram deusas ligadas ao culto à mãe-terra, zeladoras de fontes e covas sagradas, transmissoras de energias lunares e telúricas.
As três grandes deusas do Leste, Isis, Cibele e Diana de Éfeso, que eram representadas como negras, se estabeleceram no Ocidente antes de sua romanização. Isis, no Egito já conhecida mais de 2.000 anos antes de Cristo, era esposa de Osíris e mãe de Hórus. Sua representação artística mostra uma mãe amável. A Isis foram atribuídas sabedoria e dedicação aos humanos. Ela era a deusa mais popular do império romano tardio. As primeiras imagens da Madona Negra e de seu divino filho são representações de Isis com seu filho Hórus.

Sob a pressão do cristianismo como religião do Estado sobre o paganismo, a partir de Teodósio (346/7-395), as imagens de Madonas Negras critãs substituíram as esculturas de Isis, assumindo a energia telúrica-lunar e o poder milagroso dela. Energia lunar e poder milagroso continuam até hoje nos santuários marianos.
Nas representações da Madona Negra, sentada no trono de deusa-rainha, sobrevive, com novas explicações, o imaginário de Isis, antiga deusa mãe. Nessas representações, muitas vezes, o filho de Maria já é um adulto, apontando para o equilíbrio dos gêneros e a harmonia entre as forças lunares e solares, que são as forças do universo. No mundo andino dos Quíchua e Aimara, esse equilíbrio é o pressuposto do “bem viver” social.

Caminhando para Aparecida do Norte

1. A Mãe Preta dos paulistanos no Paiçandu

O monumento à Mãe Preta do Largo do Paiçandu é o início da nossa peregrinação à Aparecida. Trata-se de um lugar privilegiado para as comemorações pela libertação dos escravos e pelo Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro.

Originalmente, o movimento negro pretendia erigir um monumento à Mãe Negra no Rio de Janeiro, então Capital Federal, mas, com a Revolução de 1930, a mobilização foi abandonada. Membros do Clube 220, entidade que congregava agremiações negras do Estado de São Paulo, retomaram ideia no começo dos anos 50. A Câmara Municipal e os jornais mantiveram um longo e acalorado debate. A discussão deu origem a um concurso público. O trabalho vencedor foi o de Júlio Guerra, dada sua simplicidade e realismo.

A inauguração ocorreu em 23 de janeiro de 1955, como parte das comemorações de encerramento do IV Centenário da Cidade de São Paulo. A escolha do Largo do Paiçandu para acolher a homenagem à Mãe Preta se deveu à presença da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e de ser aquele largo, desde a construção da igreja, em 1906, um ponto de referência para a comunidade afrodescendente de São Paulo. Até hoje, fiéis depositam velas, oferendas e pedidos aos pés da Mãe Preta. O lugar é também ponto de encontros, protestos e comemorações. Em 2004, com base em pedido encaminhado pela Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, o monumento à Mãe Preta foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo.

Autor: P.S.