PEC 215 não é votada por comissão especial da Câmara e, segundo regimento, deve ser arquivada


           
Dia 17 de dezembro, o Congresso finalizou as votações do ano legislativo e da atual legislatura sem que a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215 tenha sido votada pela comissão especial que a analisava. Com isso, de acordo com o Regimento da Câmara, a comissão deve ser extinta e o projeto arquivado, numa vitória histórica para defensores do meio ambiente, povos indígenas e tradicionais.

            Com apoio da bancada do agronegócio na Câmara, a PEC pretendia transferir do Executivo para o Legislativo a prerrogativa de formalizar Terras Indígenas, Unidades de Conservação e Territórios Quilombolas. Se aprovada, significaria, na prática, a paralisação definitiva dos processos de oficialização dessas áreas protegidas, entre outros retrocessos para os direitos socioambientais.
            As últimas duas semanas foram particularmente tensas para os opositores da proposta, quando parlamentares ruralistas e socioambientalistas travaram uma batalha de manobras regimentais em torno de sua tramitação. Desde terça (16/12), os acessos ao Congresso foram restringidos. Um grande aparato policial foi mobilizado sob a ordem do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), para impedir a entrada de manifestantes. Indígenas que protestavam contra a PEC foram reprimidos e seis deles foram presos.
            O vice-presidente da comissão especial, o ruralista Nílson Leitão (PSDB-MT), reconheceu a derrota em Plenário, apesar da bancada do agronegócio dominar o colegiado. "Não conseguimos terminar o ano sem debater minimamente a PEC. Fomos derrotados de forma covarde. O presidente da comissão, Afonso Florence [PT-BA], nos enrolou toda a manhã e veio aqui sorrateiramente e encerrou a reunião", resignou-se o deputado.

            Durante boa parte da manhã, conduzindo uma reunião conturbada da comissão, Florence rejeitou pacientemente, uma a uma, as várias questões de ordem apresentadas pelos poucos deputados contrários à PEC. O petista, no entanto, ganhou tempo e irritou os ruralistas. Pouco antes do meio dia, quando faltou luz no Congresso, ele suspendeu a sessão. Os deputados tiveram de ir ao plenário da Câmara para acompanhar as votações da ordem do dia.
            A expectativa dos ruralistas era ler e votar o substitutivo do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) assim que as votações no plenário terminassem e a reunião fosse retomada. Com o alongamento de votações complexas no plenário, Florence pediu a palavra e determinou o encerramento da reunião da comissão de lá mesmo, sob protestos de Nílson Leitão. Nos corredores da Câmara, a expectativa era de que os ruralistas tentariam uma nova manobra para realizar uma nova reunião da comissão. Eles continuaram pressionando Alves e Florence a voltar atrás e para tentar votar o relatório de PEC até tarde da noite, mas, já com o Congresso esvaziando-se, não tiveram sucesso.
            Eles precisariam apreciar o substitutivo de Serraglio no máximo até amanhã. Em geral, os parlamentares deixam Brasília para voltar aos seus estados no máximo até quinta na hora do almoço. O recesso parlamentar está previsto para começar na próxima segunda (22/12). Do lado de fora do Congresso, um grupo de mais de 50 índios passou o dia em protesto contra a PEC, cantando e dançando, impedido de entrar no prédio por um grande contingente de policiais. Não houve incidentes durante todo o dia.
            “Essa foi realmente a vitória de 2014, num momento em que não víamos a possibilidade de vencermos, diante dos votos e das manobras ruralistas”, comemorou Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Ela ressaltou a importância da união de parlamentares aliados, organizações indígenas, indigenistas e ambientalistas na luta contra a PEC.

[Fonte: Cimi.org.br]

Na entrevista, o Papa Francisco sem censura

Domingo, 07 de dezembro de 2014

“Deus me dá uma dose sadia de inconsciência”, diz Francisco
“Deus é bom comigo, me dá uma dose sadia de inconsciência. Vou fazendo o que tenho que fazer”. “Uma coisa que me disse desde o primeiro momento foi: “Jorge, não mudes. Segue sendo você mesmo, porque mudar nesta idade seria ridículo”.

Essas são algumas frases proferidas pelo Papa Francisco, que cumpre 21 meses de pontificado, na entrevista concedida à jornalista Elisabetta Piqué, publicada pelo jornal argentino La Nación, 07-12-2014.


O ex-arcebispo de Buenos Aires, que no próximo dia 17 completará 78 anos, disse que a reforma da Cúria não estará pronta no próximo ano, conforme se especulava. Em uma entrevista de 50 minutos, realizada na última quinta feira na suíte 201 do segundo andar da Casa de Santa Marta, no Vaticano, Francisco estava acessível, relaxado, de bom humor, e não evitou temas espinhosos, como as controvérsias em torno do recente Sínodo dos Bispos sobre a família, em outubro passado. “O que o cardeal alemão Walter Kasper fez foi dizer para que se busquem hipóteses, ou seja, ele abriu o campo. E alguns estavam com medo”, disse ele.

Nada mudou ainda. Para tranquilizar a esses setores que acreditam que o sínodo criou confusão, o Papa também recordou que o sínodo "é um processo' e que "não se tocou em nenhum ponto da doutrina da Igreja sobre o matrimônio".

Falando do aluvião de argentinos que viajam a Roma para tirar uma foto com ele, confirmou que, em vistas das eleições do próximo ano, decidiu não mais receber em privado a políticos, mas somente no final das audiências gerais das quartas-feiras, na Praça de São Pedro.

A Argentina tem que chegar ao fnal do mandato em paz. Uma ruptura do sistema democrático, da Constituição, neste momento seria um ero. Todos devem colaborar nisso e eleger as novas autoridades. Para não interferir nisso, não recebo mais políticos em audiência privada", disse.

O recente Sínodo dos Bispos sobre a família expôs duas visões da Igreja, com um setor aberto ao debate e outro que não quer saber de nada. É assim mesmo?

Na. Sra. Desatadora dos Nós
"O que eu senti é uma busca fraterna para saber como lidar com problemas familiares pastorais. A família está muito enfraquecida, os jovens não se casam. O que está acontecendo? Depois, quando se casam, já vivendo juntos, acreditamos que com três conferências podemos prepará-los para o casamento. E isso não é suficiente, porque a grande maioria não está consciente do que significa se comprometer para toda a vida. Bento XVI disse duas vezes no último ano, que para a anulação do casamento deve ser levado em conta que fé teve essa pessoa quando se casou. Se fosse uma fé geral, mas sabendo perfeitamente o que era o casamento, e o que o levou a fazer isso. E isso é uma coisa que devemos estudar a fundo para saber como ajudar..."

Os setores conservadores, sobretudo dos Estados Unidos, temem a decadência da doutrina tradicional. Dizem que o Sínodo causou confusão porque se falou de “elementos positivos" na coabitação e em casais gays no projeto, logo se voltou atrás...

O Sínodo foi um processo, e assim como a opinião de um padre sinodal é a opinião de um padre sinodal, assim também o relatório intermediário foi também um primeiro rascunho, onde tudo foi coletado. Nada se falou de casamento homossexual no Sínodo. O que falamos é como uma família que tem um filho ou uma filha que seja homossexual deve educar, como se ajuda a essa família a levar adiante esta situação então inédita. Assim, se falou da família e dos homossexuais em relação às suas famílias porque é uma realidade que a todo momento encontramos nos confessionários: um pai e uma mãe que te um filho ou filha assim. A mim já aconteceu várias vezes em Buenos Aires. E bem, é preciso ver como ajudar a este pai e a esta mãe para que acompanhem a esse filho ou filha. Foi sobre isso que se falou no Sínodo. Por isto alguém falou de elementos positivos no primeiro rascunho. Mas era um rascunho relativo”. (Nota da IHU On-Line: O Papa se refere ao assim chamado relatório intermediário, publicado após a primeira semana do Sínodo.)

O Papa afirmou que não tem medo em seguir o caminho da sinodalidade, “porque é o caminho que Deus nos pede, é mais, o Papa é o garantidor, está aí para cuidar disso”, e acrescentou: “No caso dos divorciados e recasados, nos perguntamos: o que fazemos com eles? Que portas lhes poderão ser abertas? E foi uma pergunta pastoral: Então, não lhes vamos dar a comunhão? Não é uma solução; somente isso não é a solução, a solução é a integração”.


“Não estão excomungados, é verdade. Mas não podem ser padrinhos de batismo, não podem ler a leitura na missa, não podem dar a comunhão, não podem dar catequese, não podem umas sete coisas, tenho uma lista aí. Se eu conto isto pareceriam ex-comumngados de facto! Então, abrir as portas um pouco mais”.

Francisco concedeu a entrevista poucos dias antes da festa da Virgem de Guadalupe, padroeira da América Latina, no dia 12 de dezembro. Neste dia ele celebrará uma missa solene na Basílica de São Pedro, onde músicos argentinos interpretarão a Misa Criolla, composta por Ariel Ramírez, há 50 anos. A interpretação será de Facundo Ramírez, filho do autor, e a cantora Patrícia Sosa, junto com um coro romano.

“Quando escutei pela primeira vez a Misa Criolla eu era estudante, acho que de teologia, não recordo bem. E gostei muito. Gostei muito do “Cordeiro de Deus”, que é de uma beleza impressionante. O que não esqueço nunca é que a escutei cantada por Mercedes Sosa”, disse o Papa.


Eis a entrevista
fonte: UNISINOS


Para América Latina é fonte de orgulho ter o primeiro papa não europeu. O que o senhor espera da região?

América Latina está percorrendo um caminho. E isto faz tempo, ou seja, desde a primeira reunião do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM, desde a criação do Celam. Dom Larraín, o primeiro presidente do Celam, deu-lhe um grande impulso. Foi a conferência do Rio, depois Medellín, depois Puebla, Santo Domingo e Aparecida.

São marcos que o episcopado latino-americano foi construindo, colegialmente, com metodologias diferentes, primeiramente de modo tímido. Mas este caminho de 50 anos não pode ser ignorado porque é um caminho de tomada de consciência de uma Igreja na América Latina e de maturação na fé. Juntamente com este caminho, se desprendeu também uma grande preocupação em estudar a mensagem guadalupana. A quantidade de estudos sobre a Virgem de Guadalupe, sobre a imagem, sobre a mestiçagem, sobre o NicanMopoua, é impressionante, é uma teologia de fundo. Por isso ao celebrar do Dia da Virgem de Guadalupe, padroeira da América, no dia 12 de dezembro, e os 50 anos da Misa Criolla, estamos comemorando um caminho da Igreja Latino-Americana.

Uma recente pesquisa na região (do Pew Research Center) mostra que, apesar do “efeito Francisco”, há católicos que seguem abandonando a Igreja.

Conheço as estatísticas que deram em Aparecida. Este é o único dado que tenho. Evidentemente, há vários fatores que intervêm nisso, externos à Igreja. Por exemplo, a teologia da prosperidade inspira muitas propostas religiosas que atraem as pessoas. Mas logo as pessoas ficam na metade do caminho. Mas deixando de lado os fatores externos, me pergunto: quais são as nossas coisas, dentro da Igreja, que não deixam os fieis satisfeitos? É a falta de proximidade e o clericalismo.

A proximidade é o chamado hoje ao católico, a sair e fazermo-nos próximos das pessoas, dos seus problemas, das suas realidades. O clericalismo, eu disse aos bispos do Celam no Rio de Janeiro, freou a maturidade laical na América Latina. Onde os leigos são mais maduros na América Latina é na expressão da piedade popular. Mas as organizações leigas sempre tiveram problemas com o clericalismo. Eu falei disto na Evangelii Gaudium.

A renovação da Igreja para a qual o senhor aponta também para a busca destas “ovelhas perdidas” e a frear essa sangria de fieis?

Não gosto de usar essa imagem da “sangria” porque é uma imagem muito ligada ao proselitismo. Não gosto de usar termos ligados ao proselitismo porque não é a verdade. Gosto de usar a imagem do hospital de campanha: há pessoas muito feridas que estão esperando que nós curemos as feridas, feridas por mil motivos. E é preciso sair a curar feridas.

Essa é a estratégia, então, para recuperar os que vão embora?

Não gosto da palavra “estratégia”, mas eu chamaria de chamada pastoral do Senhor. Caso contrário, parece uma ONG... É o chamado do Senhor, é o que Ele hoje pede à Igreja, não como estratégia, porque a Igreja não faz proselitismo. A Igreja não quer fazer proselitismo porque a Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração, como disse o Papa Bento. A Igreja deve ser um hospital de campanha e sair para curar feridas, como o bom samaritano. Há pessoas feridas por desatenção, por abandono da própria Igreja, pessoas sofrendo horrores...

O senhor é um papa que costuma falar de maneira direta, o que ajuda a deixar claro o rumo do seu pontificado. Por que acha que há setores que estão desorientados, que dizem que ‘o bardo está sem timoneiro”, sobretudo depois do sínodo sobre a família?

Estranho essas expressões. Não me consta que elas tenham sido ditas. Na mídia aparecem como que se tivessem sido ditas. Mas, até que eu pergunte ao interessado: “O senhor disse isto?”, mantenho a dúvida fraternal. Mas, geralmente, é porque não lêem as coisas. Uma vez alguém me disse: “Sim, claro, isto do discernimento é bom que se faça, mas precisamos coisas mais claras”. E eu lhe disse: “Olha, eu escrevi uma encíclica, é verdade, que a quatro mãos, e uma exortação apostólica. Continuamente estou fazendo declarações, fazendo homilias e isso é magistério. Isso que está aí é o que eu penso, não o que a mídia diz é o que eu penso. Vá até aí e vai encontrar e está bem claro; Evangelii Gaudium é muito clara.

Na mída, alguns falaram do ‘fim da lua de mel” pela divisão que veio à luz no sínodo...

Não foi uma divisão tipo ‘estrella’ contra o Papa. Ou seja, não tinham como referência o Papa. Porque aí o Papa procurou abrir o jogo e escutar a todos. O fato de que, no final, meu discurso tenha sido aceito tão entusiasmadamente pelos padres sinodais indica que o problema não era o Papa, mas entre as diferentes posturas pastorais.

Sempre que há uma mudança de statu quo, como foi sua chegada ao Vaticano, é normal que haja resistências. Pouco mais de 20 meses, esta resistência, silenciosa no começo, para se tornar mais evidente...

A palavra foi dita pela senhora. As resistências agora se evidenciam, mas para mim é um bom sinal, que elas sejam ventiladas, que não as digam às escondidas, quando alguém não está de acordo. É sadio as coisas sejam ventiladas. É muito sadio.

A resistência tem a ver com a limpeza que o senhor está fazendo, com a reestruturação interna da cúria romana?

Considero as resistências como pontos de vista diferentes, não como coisa suja. Elas tem a ver com decisões que vou tomando. Isto sim. Claro, há decisões que tocam algumas causas econômicas, outras mais pastorais...

Está preocupado?

Não, não estou preocupado. Parece-me tudo normal, porque seria anormal se não existissem pontos divergentes. Seria anormal que não saísse nada.

O trabalho de limpeza terminou ou segue?

Não gosto de falar de “limpeza”.  Trata-se de fazer marchar a cúria na direção que as congregações gerais (as reuniões que antecedem o conclave) pediram. Não, para isto falta ainda muito. Falta, falta. Porque, nas congregações gerais pré-conclave, os cardeais pedimos muitas coisas e é preciso andar avante em tudo isso...

O que precisou limpar foi pior do que esperava?

Em primeiro lugar, eu não esperava nada. Esperava voltar para Buenos Aires (risos). E depois acho que, não sei, Deus nisso é bom para comigo, me dá uma dose sadia de inconsciência. Vou fazendo o que tenho que fazer.

Mas como anda o trabalho em curso?

Bom, é tudo público, se sabe. O IOR (Instituto para as Obras de Religião) está “funcionando fenômeno” e se fez bastante bem isto. No que se refere à economia, está indo bem. E a reforma espiritual é o que neste momento me preocupa mais, a reforma do coração. Estou preparando a alocução de Natal para os membros da cúria; farei duas saudações natalícias. Uma com os prelados da cúria e outra com todo o pessoal do Vaticano, com todos os dependentes, na Aula Paulo VI, com suas famílias, porque eles também levam as coisas para frente. Os exercícios espirituais para prefeitos e secretários são um passo para a frente. É um passo importante que estejamos seis dias fechados, rezando e, como no ano passado, faremos na primeira semana da Quaresma. Na mesma casa.

Na semana que vem reúne-se novamente o G-9 (o grupo de 9 cardeais consultores que ajudam o Papa no processo de reforma da cúria e no governo universal da Igreja). A famosa reforma da cúria estará pronta em 2015?

Não, o processo é lento. Outro dia tivemos uma reunião com os chefes dos dicastérios e foi apresentada a proposta de juntar os dicastérios dos Leigos, Família, Justiça e Paz. Houve a discussão, cada um expressou o que lhe parecia, e agora isto volta para o G-9. Ou seja, a reforma da cúria leva muito tempo, é a parte mais complexa...

Quer dizer que não estará pronta em 2015?

Não, ela vai se fazendo passo a passo.

É certo que um casal poderia estar à frente deste novo dicastério que juntaria os Pontifícios Conselho de Leigos, da Família e de Justiça e Paz?

Pode ser, não sei. Na frente dos dicastérios ou da secretaria estarão as pessoas mais aptas, seja homem, seja mulher, ou um casal...

E não, necessariamtne, um cardeal ou bispo...

Em cima, num dicastério como a Congregação para a Doutrina da Fé, da Liturgia ou no novo que juntará Leigos, Família e Justiça e Paz, sempre estará na frente um cardeal. Convém que seja assim pela proximidade com o Papa como colaborador neste setor. Mas os secretários de discastério não precisam ser bispos, porque um problema que temos aqui surge quando precisamos mudar um secretário-bispo. Onde o mandamos? É preciso encontrar uma diocese, mas às vezes eles não são aptos para uma diocese, mas sim para o trabalho que fazem como secretários. Somente nomeei dois bispos secretário: o secretário do Governatório do Vaticano, para nomeá-lo pároco de tudo isto, e o secretário do sínodo dos bispos, pelo que significa a episcopalidade ali.

Foi um ano intenso: muitas viagens importantes, o sínodo extraordinário, a oração pela paz no Oriente Médio nos jardins do Vaticano... Qual foi o melhor momento e qual o pior?

Não sei dizê-lo. Todos os momentos têm algo de bom e algo que não é tão bom, não? (silêncio). Por exemplo, o encontro com as avós, com os anciãos, foi de uma beleza impressionante.

Também estava o Papa Bento...

Gostei muito desse encontro, mas não foi o melhor porque todos são lindos. Não sei, mas me vem isto. Nunca pensei nisso.

E de ser Papa, o que gosta mais e o que mais lhe desgosta?

Uma coisa, e isto é verdade e isto quero dizer: antes de vir para cá, eu estava me retirando. Ou seja, quando voltasse para Buenos Aires, combinara com o núncio de fazer a terna para que no final desse ano (2013), assumisse o novo arcebispo. Tinha a cabeça focada nos confessionários das igrejas onde iria trabalhar. Inclusive estava no projeto de passar dois ou três dias em Luján e o resto em Buenos Aires, porque Luján para mim me diz muito, e as confissões em Luján são uma graça. Quando vim para cá, tive que começar tudo de novo. E uma coisa eu me disse desde o primeiro momento: “Jorge não mudes, segue sendo você mesmo, porque mudar nesta tua idade te tornaria ridículo”. Por isso tenho mantido o que fazia em Buenos Aires. Com os erros que isto pode ter. Mas prefiro andar assim como sou. Evidentemente, isto produziu algumas mudanças nos protocolos, não nos oficiais porque estes eu observo bem. Mas meu modo de ser mesmo nos protocolos é o mesmo que em Buenos Aires, ou seja, esse “não mudes” enquadrou bem a minha vida.

Na volta da Coreia do Sul, respondendo a uma pergunta o senhor disse que em dois ou três anos esperava “ir à casa do Pai” e muitas pessoas ficaram preocupadas com o seu estado de saúde, pensando que estava doente ou algo parecido. Como o senhor está? Como se sente? Eu o vejo muito bem...

Tenho os meus achaques e nesta idade se sentem os achaques. Mas estou nas mãos de Deus, até agora consigo levar um ritmo de trabalho mais ou menos bom.

Um setor conservador nos EUA acha que o senhor tirou o cardeal tradicionalista norte-americano Raymond Leo Burke do Supremo Tribunal da Assignatura Apostólica por ser o líder de um grupo de resistência a qualquer tipo de mudança no sínodo dos bispos... É verdade?

Um dia o cardeal Burke me perguntou o que iria fazer, já que eu não o confirmara no cargo, na parte jurídica, estava com a fórmula donec alitur provideatur ("até que se disponha outra coisa”). E lhe disse: “Dê-me um pouco de tempo porque no G-9 se está pensando na reestruturação jurídica”, e lhe expliquei que ainda não havia nada feito e que se estava pensando. E depois surgiu a questão da Ordem de Malta e aí tinha a necessidade de um americano vivo, que pudesse se mover neste âmbito e me ocorreu o nome dele para esse cargo. Eu lhe propus isto muito antes do sínodo. E lhe disse: “Isto vai ser depois do sínodo porque quero que o senhor participe do sínodo como chefe de dicastério” porque como capelão de Malta não podia. E bem, me agradeceu muito, em bons termos e aceitou. Até gostou, me parece. Porque ele é um homem de mover-se muito, de viajar e ai vai ter trabalho. Ou seja, não é certo que o tirei pela maneira como se comportou no sínodo.

O senhor tem planos para o seu 78º aniversário, no dia 17 de dezembro? Vai festejar com os barboni (sem teto) como no ano passado?
 

Não convidei os barboni. Quem os trouxe foi o esmoleiro. E foi um gesto bom. Aí se construiu o mito de que eu tomara o café da manhã com os barboni. Mas eu tomei o café da manhã com todas as pessoas da casa e estavam aí barboni. São essas coisas folclóricas que se criam de mim... Como o aniversário cai num dia em que não tenho missa na capela, porque é quarta-feira e tem a audiência geral, vamos almoçar juntos com todos os empregados da casa. Para mim, vai ser um dia totalmente normal. como todos os outros dias.

Sonhar é preciso: O Vaticano recebe mil refugiados da Turquia (no sonho do Papa Francisco).


Em seu discurso ao Parlamento Europeu, die 25 de novembro de 2014, o Papa Francisco afirmou que “é necessário enfrentar juntos a questão migratória. Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério! Nos barcos que chegam diariamente às costas europeias, há homens e mulheres que precisam de acolhimento e ajuda. A falta de um apoio mútuo no seio da União Europeia arrisca-se a incentivar soluções particularistas para o problema, que não têm em conta a dignidade humana dos migrantes, promovendo o trabalho servil e contínuas tensões sociais”.
         O Papa pediu em diversas ocasiões ser corajoso e “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho (Evangelii gaudium 20)”. Respondendo a esse pedido devemos advertir, que o Vaticano é praticamente o único Estado Europeu que não recebe refugiados, que não tem um direito de asilo nem uma casa para receber refugiados que pedem asilo político.
         O padre Gabriele Bentoglio, que é subsecretário do Conselho Pontifício para Migrantes, explicou, que sua tarefa não é de ajudar refugiados diretamente no Vaticano e declarou: “Nós apoiamos no mundo inteiro os bispos locais nessa questão, pratica e espiritualmente”. Mesmo em espaços extraterritoriais, como “São Pedro fora dos Muros”, onde em 2011 umas dúzias de sem-teto pediram asilo, a resposta do Vaticano era negativa.


      
   Em Lampedusa, porém, que pela visita do Papa em 2013 chamou a atenção para os refugiados da África, diocese, paróquia e organizações católicas prestam ajuda concreta, como corresponde à coerência com o Evangelho. Percebe-se como é difícil avançar de uma Igreja “advogada da justiça e defensora dos pobres” (Documento de Aparecida, 395) para uma Igreja pobre, e como é difícil para o aparato eclesiástico e para todos nós de ir ao encontro do sonho evangélico do Papa Francisco e dar passos concretos em direção de “uma Igreja pobre para os pobres” (EG 198) ou logo de uma Igreja pobre dos pobres.


Recuperar a gratuidade!


“As paróquias eliminem as listas dos preços dos sacramentos", pede o Papa


“Quantas vezes vemos que, entrando numa igreja ainda hoje, encontra-se ali a lista dos preços: para o batismo, a bênção, as intenções para a missa. E o povo se escandaliza”. São palavras do Papa Francisco na homilia da missa na Casa Santa Marta. “As Igrejas – sublinhou o Pontífice – jamais se tornem casas de negócios, pois a redenção de Jesus é sempre gratuita”. “Eu penso – explicou – no escândalo que podemos dar ao povo com o nosso comportamento, com os nossos hábitos não sacerdotais no Templo: o escândalo do comercio, o escândalo da mundanidade”.

A informação é publicada pelo  jornal La Repubblica, 21-11-2014.

O Papa fez sentir com força o seu anátema perante a Igreja negociadora. Uma Igreja que pensa somente em fazer negócios comete “pecado de escândalo”. Depois o Pontífice comentou o Evangelho no qual Jesus expulsa os mercadores do Templo porque transformaram a casa de orações num covil de ladrões. “As pessoas boas iam ao templo; procuravam Deus, rezavam, mas deviam trocar as moedas para fazer as ofertas”. Como de costume, o Santo Padre referiu-se a um episódio ao qual assistiu quando recém se tornara sacerdote:

“Estava com um grupo de universitários e um casal de noivos queria se casar. Tinham ido a uma paróquia, mas queriam fazê-lo com a missa e ali, o secretário paroquial disse ‘não se pode’ porque há outros turnos”.
Ante a insistência do casal que queria celebrar o matrimônio com uma missa, - referiu o Papa Francisco, - aquele secretário de paróquia disse que então teria de pagar dois turnos. E, para casar-se com a missa, tiveram que pagar dois turnos. “Isto – denunciou com força Francisco – é pecado de escândalo”. Um peado tão grande que, como recordou: “Nós sabemos o que disse Jesus àqueles que são causa de escândalo: ‘Seria melhor que fossem jogados no mar’.”

O comportamento denunciado pelo Papa Bergoglio, como recordou ele mesmo, investe também contra os leigos. “Se eu vejo que na minha paróquia se faz isto – denunciou no decurso da homilia -, devo ter a coragem de dizê-lo na cara ao pároco. É curioso: o povo de Deus sabe perdoar os seus padres quando têm uma fraqueza, deslizam no pecado... sabe perdoar. Mas, há duas coisas que o povo de Deus não pode perdoar: um padre agarrado ao dinheiro e um padre que maltrata o povo”. O Papa Bergoglio explicou porque Jesus insiste tanto contra o dinheiro: “Porque a Redenção é gratuita. E quando a Igreja ou as Igrejas se tornam comerciantes, se diz que não é tão gratuita a salvação”.

Manoel de Barros - O alquimista do Pantanal se foi




"Prezo insetos mais que aviões,
Prezo a velocidade das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
é maior do que o mundo."

Manoel de Barros

Manoel de Barros morreu aos 97 anos. O corpo do poeta foi enterrado nesta quinta-feira 13 de novembro, no cemitério Parque das Primaveras, em Campo Grande. Manoel de Barros era um alquimista das palavras do Pantanal. Fui buscar na minha biblioteca "O Guardador de Águas", onde encontro versos que o poeta diz ter aprendido sozinho: "No osso da fala dos loucos têm lírios"




"Quem anda no trilho
é trem de ferro,
sou água
que corre entre pedras:
liberdade caça jeito".

Manoel de Barros

Igrejas preocupadas com a difusão do uso de 'drones'


Genebra (RV) – O Conselho Mundial das Igrejas (CMI) condena a utilização de veículos aéreos não tripulados, conhecidos como ‘drones’, considerando-os ‘uma série ameaça para a humanidade’.



O comitê do CMI se reuniu nos últimos dias no Centro Ecumênico de Bossey, na Suíça, e emitiu um comunicado sublinhando que o uso desta tecnologia está permitindo países como Estados Unidos, Israel, Rússia e Reino Unido desenvolver sistemas que darão plena autonomia de combate a estas máquinas telecomandadas. 

A utilização de ‘drones’ começou na guerra dos Bálcãs e foi aumentando no Afeganistão, Iraque, Iêmen, Somália, e recentemente, no Paquistão. 

O comitê exorta os governos a respeitar e reconhecer o dever de proteger o direito à vida de seus cidadãos, e opor-se à violação dos direitos humanos, convidando a comunidade internacional a se opor às políticas e práticas ilegítimas. 

Em novembro passado, o Arcebispo Silvano Maria Tommasi, Representante Permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, se disse preocupado pelo uso de ‘drones’: “Nos últimos anos – declarou – o emprego destes aviões em conflitos armados e ações bélicas internacionais aumentou de modo exponencial. Para certos líderes, os fatores sociais, políticos, econômicos e militares podem ter modificado a equação sobre o uso de ‘drones’ armados, mas as preocupações éticas e humanitárias continuam grandes e aumentam em proporção com a sua utilização”.
Na realidade brasileira passou quase despercebido a compra da Titan Aerospace, fabricante de veículos aéreos não tripulados, conhecidos como drones. Nessa compra, o Google venceu o Facebook de Mark Zuckerberg que estava negociando a compra da Titan por US$ 60 milhões. Os novos "Titanos" de hoje, amanhã serão nossos tiranos.



Em Nota, CNBB defende os direitos dos povos indígenas


A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou hoje, dia 23, nota manifestando a preocupação da entidade em relação aos direitos dos povos indígenas, após decisões da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) de anular os efeitos de portarias do Ministério da Justiça que reconheciam territórios ocupados por povos indígenas no Maranhão e no Mato Grosso do Sul. O texto foi aprovado pelo Conselho Permanente da Conferência, que esteve reunido em Brasília, de 21 a 23 de outubro. "A CNBB espera que não haja retrocesso na conquista dos diretos indígenas, especialmente quanto à demarcação de seus territórios", afirma a nota.

Leia o texto na íntegra:
  
Os direitos dos povos indígenas
Nota da CNBB


O Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília nos dias 21 a 23 de outubro de 2014, manifesta sua preocupação com a decisão da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal-STF que anulou os efeitos da Portaria Declaratória nº 3.219/2009, do Ministério da Justiça, que reconhece a Terra Indígena Guyraroká, do Povo Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, como de ocupação tradicional indígena.
Lamenta, igualmente, a anulação, pela mesma 2ª Turma do STF, da Portaria 3.508/2009 que declara a Terra Indígena Porquinhos, no Maranhão, como de posse permanente do grupo indígena Canela-Apãniekra.
A garantia dos territórios aos povos indígenas é um direito conquistado e consignado na Constituição Federal, com árdua luta de muitas pessoas da sociedade brasileira. Infelizmente, interesses econômicos têm impedido a demarcação das terras indígenas, que é a concretização do direito constitucional. Por isso, grande parte dos povos indígenas do Brasil continua vivendo exilada de suas terras devido ao esbulho e à violência histórica cometida contra suas comunidades.
Questionar as demarcações das terras indígenas no poder judiciário tem sido uma estratégia utilizada com vistas a retardar ou paralisar as ações que visam à garantia de acesso dos povos originários aos seus territórios tradicionais. Enquanto aguardam a demarcação de suas terras, várias comunidades indígenas ficam acampadas à beira de rodovias ou nas poucas áreas de mata nos fundos de propriedades rurais, sem direito à saúde, à educação, a água potável, sofrendo ações violentas.
A CNBB espera que não haja retrocesso na conquista dos direitos indígenas, especialmente quanto à demarcação de seus territórios. Concluir o processo de demarcação das terras indígenas é saldar uma dívida histórica com os primeiros habitantes de nosso país e decretar a paz onde há graves conflitos que vitimam inúmeras pessoas.
Que Deus nos dê forças para garantir os direitos dos povos indígenas e de todos os brasileiros, superando toda atitude de abandono e descarte das populações originárias. Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, nos ajude a construir a paz que nasce da justiça e do amor.
Brasília, 23 de outubro de 2014

  
Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB
  

Dom José Belisário da Silva

O mito à procura de sua história: V Simpósio de Teologia Índia em San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México.




Do dia 13 a 18 de outubro 2014 está se realizando o V Simpósio de Teologia Índia em San Cristóbal de Las Casas (Chiapas, México). O evento está sendo organizado pelo Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano).O tema, ainda considerado polêmico, trata "A revelação de Deus e a Teologia Índia". Os teólogos presentes trabalham o tema já em outra perspectiva: "A Teologia Índia como Teologia Fundamental da Igreja Católica". Em tese, também os bispos presentes, que trabalham em áreas indígenas, apoiam essa reformulação.


Caminhos abertos
na teologia da revelação

        
Celebração eucarística na Igreja San Diego, Chiapas
A tentativa de construir uma ponte entre a percepção da revelação cristã, que se formou no decorrer dos séculos, e a revelação de Deus no meio de todos os povos, aponta para o reconhecimento da subjetividade dos povos indígenas, para a inculturação de seu universo religioso e a descolonização da própria Igreja. Esse reconhecimento que procura tratar os povos indígenas não somente como destinatários da missão e da revelação cristã, mas também como interlocutores, não é algo exterior à normatividade do cristianismo, portanto, uma medida estratégica ou tática para defender a causa dos pobres e a dos povos indígenas, mas é inerente aos imperativos do Evangelho. O conceito da “revelação” não é propriedade de nenhuma denominação religiosa, mas todas as denominações podem definir esse conceito segundo a sua história, seu contexto e seus discernimentos.
       
Os participantes do evento: Indígenas e Bispos e Teólogos e Teólogas
  
    Jesus Cristo é não apenas aquele que veio, mas também aquele que virá, não somente como juiz, mas como revelador definitivo do Pai e doador da graça da unidade no Espírito Santo. Nessa perspectiva pode-se pensar o cumprimento definitivo do sentido profundo da revelação: tirar o véu das contingencias históricas. Deus vai tirar o véu de Seu mistério e todos verão a Deus face a face. A absoluta transcendência se tornará palpável na absoluta proximidade.

[O texto faz parte da minha contribuição no V Simpósio de Teología India: “Revelación de Dios y Pueblos Originarios”, realizado em Chiapas, México (13-18.10.2014). P.S.]




Dom Tomás Balduino no ritual dos índios Krahô



Choro Kraô (fotos: Laila Menezes)















“Ele está aqui. Eu vi. Uma pessoa quando morre fica entre nós ele não foi embora. Ele está aqui. Ele está olhando por nós. São poucos os que ajudam os povos indígenas. Tem que continuar o trabalho, a luta de D. Tomás.”



Gercília Krahô, importante liderança do povo, recebeu, na nova aldeia,  com muito carinho, parentes e amigos de D. Tomás, que ela tinha como tio. Para o povo Krahô o tio tem uma relevância tão importante no papel da formação social quanto o pai.





A homenagem ritual Amjĩkĩn Pàrcahàc acontece como finalização de luto de um parente e neste caso seu inesquecível amigo Tomás. Este ritual compreende momentos marcantes de noites acordados embalados pelos cantos no pátio, pinturas corporais, os cortes de cabelos e a corrida com a tora de buriti que simboliza o corpo de D. Tomas.  
Esse corpo pintado e empenado percorre o pátio nos ombros dos indígenas e em seguida levado a casa de Gercília, onde é  envolto  em um pano e logo depois despido para que as mulheres possam se despedir através do choro ritual, um lamento profundo de lagrimas e soluços que toca e faz chorar muitos presentes.

O cerrado já se vestia de verde e o rio se tingia de Vermelho para participar desse momento ímpar da memória de um de seus filhos e defensores intransigente e radicalmente comprometido com a diversidade de vida, povos e comunidades originárias deste Brasil central.

Cenário perfeito para um grande e inesquecível acontecimento. Beleza e simplicidade, alegria e lágrimas, gestos profundos de espiritualidade ritual. A celebração da memória de um “kupen” (não indígena) na aldeia é mais do que uma excepcionalidade, é um gesto de reconhecimento da permanência dentre eles.



Presentes e compromisso

Um dos momentos marcantes do ritual Amjĩkĩn Pàrcahàc foi quando Dom Eugênio, bispo de Goiás entregou à comunidade, através de Gercília umas lembranças de D. Tomás – uma cruz simbolizando os mártires latino-americanos e uma vistosa estola, que ela imediatamente vestiu. Era mais do que memória. Foi o selado o compromisso da continuidade do trabalho em defesa da vida e dos direitos dos povos indígenas, em especial com os “mehin” (Krahô).


De longe se ouvia a cantoria ritual no centro do pátio da aldeia. Era o último dia da celebração. Gercília se aproximou de D. Eugênio, e num gesto perdido na noite, carregada de harmonia, revezando silêncios e maravilhoso cantos, tirou o colar que trazia no pescoço e colocou-o no bispo dizendo “Agora você é compadre de D. Tomás”. Umas rápidas palavras e estava selado o compromisso.

D. Eugênio declarou que sempre teve muita admiração por D. Tomás, pelos seus trabalhos, pela sua luta. Por essa razão estava junto aos Krahô, com o pessoal do Cimi, CPT e outros amigos de D. Tomás. “Simpatizo com a causa indígena e da terra. É preciso defender essa gente e os empobrecidos da terra”. Disse ter achado ótima essa oportunidade de conhecer um pouco mais da cultura indígena.

O massacre continua

No decorrer dos três dias celebrativos inúmeros depoimentos foram sendo desfilados, todos eles marcados por profunda indignação e revolta, pelas violências, omissões, preconceitos e massacres. Isabel Xerente verberou “Vão entrar em nossas terras (grandes projetos) para massacrar. Nois vivemos lutando por todos. Tenho essas borduna pra dará na cabeça”.

Vários depoimentos lembraram o avanço do agronegócio, destruindo as matas, poluindo os rios. As monoculturas da soja, do eucalipto, do gado acaba envenenando e matando a terra e os animais. Os rios estão secando.

Foi lembrada a brava resistência das comunidades indígenas diante das políticas desenvolvimentistas do atual governo com as rodovias, hidrovias, hidrelétricas, dentre outros. Porém nós indígenas somos a semente e as plantinhas dessa terra. Vamos continuar lutando. Vamos nos unir com os pobres. Vamos lutar unidos.
O povo Krahô, que faz parte da grande nação Timbira, são hoje em torno de 3.200 pessoas vivendo em 28 aldeias nos municípios de Goiatins e Itacajá no Tocantins.

Gratidão e alegria.


O ritual que marcou o fim do luto de D. Tomás entre os Krahô, também nos traz a certeza de sua presença e a continuidade de sua luta entre nós e da vitória dos povos originários do país e do continente latino-americano.

Brasília, 1º de outubro de 2014
Cimi GOTO
Egon Heck


A construção do "bem viver" hoje


Rafael Fellmer, que vive há muitos anos sem dinheiro, inspirou partes dessa reflexão sobre o "bem viver". Vale a pena ouví-lo!





Este texto representa fragmentos da quarta parte da minha palestra “Sonhar uma nova realidade do `bem viver´”, que foi apresentado no dia 4.09.2014 durante o XXXVIII Congresso de Teologia Moral, realizado em São Paulo, com o tema: “Ética teológica e transformações sociais: A utopia de uma nova realidade”.


4. Passos construtivos ao encontro do “bem viver”

O conceito do “bem viver” não é uma receita ou um manual de aplicação, mas um horizonte que nos faz caminhar, discernir e lutar. O “bem viver” não nos leva de volta à pré-modernidade. Pelo contrário, é a realização dos ideais da modernidade: igualdade, liberdade, solidariedade. A igualdade exige a redistribuição dos bens do planeta (terra, água, ar) e a implementação dos direitos humanos para todos, a liberdade requer a participação da sociedade civil na gestão da “res pública”, e a solidariedade, hoje, significa: reconhecimento do outro e da outra em todas as dimensões da vida humana.

A seguir, alguns trilhos dessas lutas que nos aproximam do “bem viver”. Através do ser-vir, o vir a ser cai na realidade da história por pequenas frestas que permitem a passagem de raios de luz e mostram os contornos embaçados da nova realidade. A partir do sofrimento dos pobres, do desprezo dos outros e das patologias que ameaçam o “bem viver” de todos, assumimos a responsabilidade de construir a nova realidade histórica que exige de nós, não pequenos reparos sistêmicos ou pessoais, mas uma virada cultural que repercuta em todos os subsistemas sociais (econômico, político, religioso) e pessoais (psicológico, ético).

As ameaças impostas ao imaginário e à realidade do “bem viver” permitem traçar trilhos para sua realização. Quais são essas ameaças? Quero destacar apenas duas delas, nas quais se insere o restante das causas do “mal viver” da humanidade como um todo.
O nosso “bem viver” é ameaçado coletiva e individualmente pelo crescimento econômico e pela aceleração das funções naturais e culturais da nossa vida cotidiana, desde a clínica do nascimento, passando pela escola e os locais de trabalho e lazer, até o asilo da nossa velhice, sempre somos rodeados por pessoas que olhem no relógio e nos fazem entender que, o que poderia ser nosso encontro com eles, é apenas um pit-stop de Fórmula 1.

Quero, em seguida, sonhar e descrever o “bem viver” como um trem montado em dois trilhos:

- no trilho de uma economia do decrescimento para chegar ao pós-crescimento, incluindo nesse trilho a redistribuição dos bens do planeta para todos;
- e no trilho da desaceleração das funções de trabalho e das relações humanas que permitiria o reconhecimento e, portanto, o encontro do outro e não nos obrigaria a substituir o “encontro” pelo “atendimento concomitante”, um pelo smartfone, outro pelo e-mail, e outro, ainda, no guichê da bilheteria.

4.1. Do decrescimento

A crise energética e a ameaça de um colapso da biosfera com seu impacto sobre o clima, fizeram emergir o paradigma de um “capitalismo verde”, de um “crescimento sustentável”, sem carbono, através de hidrelétricas, ou outras energias alternativas, como a chamada bioenergia do etanol, a energia eólica e a solar.

Por cinco motivos, a meta do capitalismo verde (etanol, hidrelétricas, energia eólica e solar, PSA) não é o “bem viver” para todos:

- primeiro, o crescimento capitalista só funciona na base da competição que produz vitoriosos e perdedores;
- segundo, o crescimento capitalista, necessariamente, é um sistema de saque e pilhagem à natureza, cujas reservas são esgotáveis;
- terceiro, o capitalismo globalizado, sempre em busca de incorporação (colonização) de novos territórios, produz recantos de exploração extrema da mão de obra humana nos confins do mundo e no meio de nós, desde a China até os esconderijos de trabalho de bolivianos no bairro do Brás, em São Paulo;
- quarto, a competição - pela individualização da luta pela sobrevivência e dos processos de produção -, destrói a coesão social da sociedade;
- quinto, o capitalismo verde também é capitalismo, e como tal, é incapaz de romper com o paradigma do crescimento econômico.

Na construção do “bem viver” não se trata da aplicação de terapias, de dietas light, de exercícios esportivos ou de práticas meditativas, que nos fazem funcionar melhor no interior do sistema, mas de uma ruptura sistêmica com o nosso estilo de vida. A estrutura do “bem viver” pode ser pensada somente no interior de uma cultura de suficiência (modéstia, sobriedade) e subsistência regionalizadas. A cultura de suficiência vai reduzir as nossas demandas do supérfluo ao necessário, e a cultura de subsistência vai recuperar a bricolagem de uma criatividade caseira, que pode substituir metade das nossas aquisições de novos objetos (desejos) pelos concertos que nós ou nossos vizinhos (em reciprocidade) são capazes de fazer.

Em consequência disso, o “bem viver” não vai exigir que trabalhemos 40 horas por semana. Trabalho não será apenas trabalho salarial. Haverá, como nas aldeias indígenas, fronteiras líquidas entre trabalho e lazer. O trabalho pode ser prazeroso.

O impacto da cultura da suficiência sobre o trabalho salarial e a produção industrial (poluidora), se sustenta em três novos comportamentos:

- muitos dos objetos que compramos podem, com mais prazer, ser produzidos em nossa casa ou em nosso quintal;
- muitos dos objetos que jogamos fora, e substituímos por novos, podem ser consertados por nós mesmos;
- muitos dos objetos de que necessitamos para o nosso dia a dia podem ser emprestados dos vizinhos e, na reciprocidade do “bem viver”, vamos disponibilizar nossos objetos (bicicleta, liquidificador, carro) a eles. Essa reciprocidade vai quebrar a lógica da riqueza privada.

Em grande parte, a cultura da suficiência e seu sustento econômico serão regionais. Não vamos abrir mão da internet, mas podemos dispensar a importação das figuras do presépio, do guarda-chuva e da nossa camisa dominical da China, onde são fabricados por salários e condições sociais vergonhosos. Como o transporte causa enormes custos ecológicos, precisamos fortalecer as economias regionais. A cultura da suficiência e subsistência nos orienta para:

- a aquisição de produtos e tecnologias simples de longa duração;
- a redução da dependência de redes externas de produção;
- a redução do consumo excessivamente diversificado (“butique de pão!”), que encarece os produtos.
O “bem viver” exige a ruptura do círculo vicioso entre crescimento e aceleração.

4.2. Da desaceleração

Em seu “Plano Colonizador”, de 1558, que é um “Plano Civilizador”, Manuel da Nóbrega pede para o abastecimento do Colégio da Bahia “duas dúzias de escravos de Guiné” (n. 24) e para a Igreja pede “sino”, “relógio” e “campainha” (n. 27). A civilização substitui o ócio, permitido pela natureza, pelo tempo cronometrado do trabalho, da reza, do estudo e do lazer. Com a colonização disciplinadora, segundo Nóbrega, se ganha “muitas almas” (n.5) e “muito ouro e prata” (n.5).

A “colonização disciplinadora”, hoje, tem o nome de globalização econômica e cultural, que é atravessada pelos eixos do crescimento e da aceleração. O ato revolucionário não é mais, como Marx pensava ser, “a locomotiva da história”, mas, no dizer de Walter Benjamim, “talvez seja tudo muito diferente, e as revoluções representem tentativas feitas pela humanidade, que viaja nesse trem, de puxar o freio de emergência”.

A abundância do etanol disponível, produzido com incentivos fiscais do governo, permite pisar fundo no acelerador do carro. Etanol e tênis, que são meios de aceleração coletiva e individual, conotam duas dimensões do “freio de emergência” necessário na construção do “bem viver”: o freio do consumo e, ligado a ele, a produção energética (Etanol), e o freio de tudo aquilo que é simbolizado pelo fetiche da velocidade individual, através do tênis.

Nenhum partido político, com mínimas chances de se eleger, vai hoje apoiar nosso modelo do “bem viver”, com seus pressupostos de crescimento zero e desaceleração. Os aliados mais confiáveis, na construção da nova realidade do “bem viver”, são os que sofrem. O sonho de uma nova realidade do “bem viver” de todos há de ser visto a partir da vida cotidiana daqueles que sentem em seus corpos e almas a distância estrutural da realidade do “bem viver”. No seu grito de um “basta”, seguido por lutas em todos os níveis da existência humana, está a força que pode “desmascarar as ideologias, que naturalizam as patologias, e desconstruir o consentimento alienado em dor histórica. A dor é sinal [...] que na vida danificada subsistem razões para viver, não para viver de qualquer jeito, mas para uma vida intacta e verdadeira”. No grito do basta se encontram “estilhaços de racionalidade e fragmentos de esperança” para a construção do “bem viver”. Lutas sociais fazem questionar a dor historicamente imposta, não pela natureza ou pela vontade de Deus, mas por aquela parcela da sociedade que faz da dor alheia um negócio. A memória dos pobres e a simplicidade de seu “bem viver” apontam para lutas históricas que podem nos aproximar ao “bem viver” de todos. Nós, que temos o privilégio do saber, temos também o dever de agir.