El Popol Vuh - Versión Animada en Español




História da Criação dos Maya

Indígenas Guarani-Mbya padecem no RS


“É preciso não ter ilusões na decisão da justiça. É uma justiça de classe, uma justiça dos latifundiários. E, apesar de que esse é o seu mais clamoroso escândalo, o furto de terra mais abjeto, o Supremo Tribunal Federal não dará ganho de causa aos índios. Alimentar ilusões nesse sentido é desarmar os lavradores pobres e os colonos...”

Jorge Amado em “Os Subterrâneos da Liberdade – Os Ásperos Tempos”


Testemunho missionário de dom Franco Masserdoti - 10 anos se passaram desde o dia de sua ressurreição



Em memória
de Dom Franco Masserdotti

Dom Franco morreu como presidente do Conselho Indigenista Missionário/Cimi (1999-2006) em exercício, como ciclista atropelado e como bispo de Balsas. Mas, ele não era somente bispo de Balsas. Em sua vida puxou muitas balsas, cada uma carregada com causas e casos que lhe foram confiados na necessidade da travessia missionária e na imprevisibilidade de sua biografia, exatamente, como o poeta canta: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Quando a Assembleia do Cimi, em 1999, elegeu D. Franco como seu presidente, ele era bispo jovem, com apenas três anos no cargo, mas missionário carimbado nas múltiplas tarefas que exerceu pela sua congregação comboniana e a Igreja universal. Já na época era um representante da “Igreja em saída”, preconizada pelo Papa Francisco. Nós do Cimi sabíamos, que na balsa da vida deste jovial e alegre missionário caberia ainda a causa indígena, uma causa pesada numa sociedade que considera os povos indígenas como um estorvo para o progresso.

Dom Franco Masserdotti assumiu a causa indígena na perspectiva de seu lema episcopal: “Para que tenham vida”. Assumiu a causa indígena com a suavidade de seu jeito amigo e com a leveza do peregrino, que lhe deu entre alguns de nós o apelido de “o pega-leve”. Vez por outra vimos D. Franco sabiamente indignado, mas nunca com uma “ira santa” contra dos inimigos da causa. Nas reuniões do Cimi, muitas vezes correu aos fundos da sala, atendendo pelo seu celular a uma das múltiplas causas que o interpelavam, interromperam e, urgentemente, solicitavam. Dom Franco deixou-se interromper por pobres, índios, aflitos. Mesmo quando não teve a possibilidade de intervir, nunca negou a graça de escutar e consolar.

Com todas essas “interrupções” de sua travessia, não perdeu a precisão da navegação. No Cimi insistiu muito na confecção de um Plano de Pastoral para que no meio das lutas indígenas sempre se dê “a razão da esperança” (cf. 1Pd 3,15) contida no dia a dia da pastoral indigenista. Pela insistência de D. Franco, a Assembleia Geral do Cimi de 2005 aprovou esse Plano de Pastoral no qual o Cimi procura prestar conta dessa esperança, de forma articulada, para si mesmo, para a Igreja do Brasil e para todos que acompanham esse trabalho com simpatia e solidariedade. Na apresentação desse Plano, D. Franco pediu “que Deus ilumine e abençoe a caminhada do Cimi a serviço do Reino”!
Querido D. Franco, irmão da caminhada! A partir das suas balsas você sempre olhou para além-fronteiras e para a terra firme que agora alcançou. Novamente é sua vez de interceder ao lado do companheiro-mártir de sua congregação, Pe. Ezequiel Ramin, e face a face com o bom Deus pela iluminação das nossas pastorais e pela firmeza nossa na defesa dos povos indígenas!

Brasília, 17 de setembro de 2016  
Paulo Suess, assessor teológico do Cimi

Travessia, não sem esperança




O juramento sinodal: caminhar juntos
No dia da derradeira votação do impeachment, 31 de agosto, bem cedo, embarquei na cidade do México, no avião da Copa, com a frágil esperança de uma vitória do bom senso e da justiça. Não foi por admiração ou gratidão à presidenta Dilma que nos pronunciamos contra à substituição do voto popular das eleições pelo voto elitista do Senado. Durante seu mandato, a presidenta deposta não foi a melhor interlocutora dos povos indígenas e dos movimentos sociais. Mas, as perícias jurídicas não confirmaram a criminalidade das pedaladas e dos créditos suplementares que serviram de pretexto para o impeachment. Nós da pastoral popular nos pronunciamos contra a substituição do voto das urnas pelo voto do Senado porque essa substituição não estava no script dos constituintes de 1988 e ameaça o futuro democrático do país.

Travessia com esperança
Doravante, cada eleição das urnas está ameaçada por uma segunda votação no Senado. Sempre haverá senadores, agora coma experiência da toga de juízes, em busca de um bode expiatório que permite redimir, não o povo, mas um bom número de senadores dos seus escândalos comprovados. Seu foro privilegiado permite metamorfosear incendiários em bombeiros.

Frida Kahlo (1907-1954)
No México, em momentos vagos entre um Simpósio na Universidade Intercontinental e um Simpósio com ex-alunos de São Paulo, visitei a casa azul de Frida Kahlo (1907-1964), onde a pintora se encontrou com Trotsky e intelectuais da época. Alguém me lembrou do Coletivo Feminista “Não me Kahlo”. Diante das pendências da vida, contudo, não sem esperança, Frida Kahlo me permite construir uma ponte às pendências da nossa democracia “sofrida, mas não me calo”.


FRANCISCO, JESUS E AS MULHERES


Frei Betto

O papa Francisco nomeou uma comissão para analisar se as mulheres devem ter acesso ao diaconato, como já ocorre com homens solteiros ou casados. Diácono ocupa, na hierarquia, um grau abaixo do sacerdócio. Pode presidir matrimônios e batizar, mas não celebrar missa. Havia diaconisas na Igreja primitiva.
Em muitos países, inclusive no Brasil, já há religiosas que, autorizadas pelo bispo local, presidem matrimônios e celebram batismos, embora não sejam diaconisas.

Francisco é muito hábil. Em vez de implodir o prédio com dinamite, prefere demoli-lo tijolo a tijolo. É o que faz ao mexer em temas que, há séculos, estavam congelados pelos tabus que envolvem a doutrina católica tradicional: recasamentos, acesso de divorciados aos sacramentos, homossexualidade, celibato obrigatório, corrupção na Cúria Romana, punição rigorosa a pedófilos etc.
Não há fundamento bíblico para excluir mulheres do sacerdócio, e até do direito de serem bispas e papisas. O grande obstáculo é a cultura patriarcal predominante nos primeiros séculos do cristianismo e ainda em voga na Igreja Católica.
Mateus aponta, na árvore genealógica de Jesus, cinco mulheres: Tamar, Raab, Rute e Maria; e, de modo implícito, a mãe de Salomão, aquela "que foi mulher de Urias". Não é bem uma ascendência da qual um de nós haveria de se orgulhar.
Viúva, Tamar se disfarçou de prostituta para seduzir o sogro e gerar um filho do mesmo sangue de seu falecido marido. Raab era prostituta em Jericó. Rute, bisavó de Davi, era moabita, ou seja, pagã aos olhos dos hebreus. A "que foi mulher de Urias", Betsabeia, foi seduzida por Davi enquanto o marido dela guerreava. E Maria, mãe de Jesus, também não escapou das suspeitas alheias, pois apareceu grávida antes mesmo de se casar com José. Como se vê, o Filho de Deus entrou na história humana pela porta dos fundos.

Jesus se fez acompanhar pelos Doze e por algumas mulheres: Maria Madalena; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana “e várias outras”, diz Lucas (8,1). Portanto, Jesus nada tinha de machista. E frequentava, em Betânia, a casa de suas amigas Marta e Maria, irmãs de Lázaro.


O primeiro apóstolo foi uma mulher: a samaritana que dialogou com Jesus à beira do poço de Jacó e, em seguida, saiu a anunciar que encontrara o Messias. A primeira testemunha da ressurreição foi Madalena. E ao curar a sogra de Pedro, Jesus demonstrou não associar sacerdócio e celibato. Pedro era casado e nem por isso deixou de ser escolhido como o primeiro papa.
A misoginia é, na Igreja Católica, uma síndrome injustificável, sobretudo se considerarmos que em comunidades rurais e de periferias urbanas são as mulheres que predominantemente conduzem a atividade pastoral. Hoje, felizmente, várias mulheres casadas detêm, inclusive no Brasil, o título de doutoras em teologia.

A teologia de meu confrade Tomás de Aquino data do século XIII e ainda serve de alicerce à doutrina oficial católica. Hoje, requer atualizações, como no quesito mulher, considerada um ser ontologicamente inferior ao homem. Razão pela qual o escravo liberto pode ser sacerdote, a mulher não.
Não há um só caso nos evangelhos em que Jesus tenha repudiado uma mulher, como fez com Herodes Antipas, ou proferido maldições sobre elas, como fez com os escribas e fariseus. Com elas, mostrava-se misericordioso, acolhedor, afetuoso, e exaltava-lhes a fé e o amor.
É chegada a hora de a Igreja assumir o seu lado feminino e abrir todos os seus ministérios às mulheres. Afinal, metade da humanidade é mulher. E a outra metade filho de mulher.


O sangue de Meruri: O martírio de Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo há 40 anos

TRANSFORMAÇÃO DO PARADIGMA MISSIONÁRIO
O martírio de Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo (1976-2016)
Paulo Suess
            O Papa Francisco recupera passo a passo o significado da catolicidade da Igreja que é ser universalmente um sinal de contradição. Ao mesmo tempo que ele rompe com muitos traços do provincialismo eclesiástico de inspiração eurocêntrica, fortalece as Igrejas locais e o princípio da sinodalidade. Essa atenção para o mundo local e para a diversidade nas microestruturas é um contraponto para a globalização uniformizada das mercadorias e da mídia de um sistema que não simplesmente explora e oprime, mas mata (cf. EG 53). Pela sua necessidade de crescimento e acumulação esse sistema matou também o missionário Lunkenbein e seu defensor, o Bororo Simão Cristino, e continua matando até hoje as lideranças indígenas.

1. Novo paradigma missionário
           
15.07.1976: Velório em Meruri/MT
               O Concílio Vaticano II (1962-1965) ajudou na reformulação do trabalho missionário junto aos povos indígenas e a todos os setores, vítimas de exploração, exclusão e desigualdade social. Na sua segunda vinda ao Brasil, em 1970, o missionário Rodolfo não veio mais para salvar as almas dos Bororo no interior de um projeto desenvolvimentista e assimilacionista, mas para propor o resgate de suas vidas e contribuir para a construção de uma perspectiva de esperança. Muitos jovens, leigos e religiosos, lutaram para colocar em prática esse novo paradigma da missão em suas Igrejas locais, Congregações e na construção dos rumos pastorais do próprio Cimi.
            O Cimi, fundado em 23 de abril de 1972, aprendeu do magistério latino-americano pós-conciliar que a missão não pode servir a dois senhores. A geração dos jovens que foi para as aldeias indígenas recusou-se a viver o seguimento, engessado por virtudes secundárias da pequena burguesia como pontualidade, parcimônia, obediência e limpeza. Aceitaram essas virtudes secundárias somente a serviço de outras virtudes maiores como justiça, solidariedade, tolerância, simplicidade e despojamento em prol da vida ameaçada dos povos indígenas. Essa geração pós-conciliar contrariou os interesses do latifúndio, do grande capital e do modelo de desenvolvimento implantado no país. Por não caber em sistemas uniformizados de competição e crescimento que visam lucro e poder, a causa indígena é um sinal de contradição e a história dos seus defensores é marcada por assassinatos ou, recentemente, por CPI´s para despistar a atenção da sociedade brasileira dos verdadeiros problemas.

2. Primeiros passos rumo à Missão
           
             Rodolfo Lunkenbein (1939-1976), alemão de nascimento, salesiano por opção e, com a graça de Deus, mártir em terras indígenas, foi, pelas duas estadias em épocas diferentes no Brasil, um missionário pré e pós-conciliar. Nascera como filho de pequenos lavradores no dia 1º de abril de 1939, em Döringstadt, no sul da Alemanha. Depois de descobrir uma biografia de Dom Bosco, com 11 anos, queria estudar no internato salesiano de Bamberg. A família não tinha os recursos para custear o sonho do filho, que queria ser missionário. Finalmente, pela mediação do pároco, já com 14 anos de idade, em 1953, foi aceito no aspirantado de Buxheim, onde foi aluno do colégio Marianum de 1952 a 1958. Os que conheciam “Lunke”, como foi chamado pelos colegas da escola, o descrevem como um jovem alegre, aberto, piedoso.
            Em 1958, o novo inspetor salesiano do Mato Grosso trouxe de sua terra natal, da Alemanha, um grupo de jovens missionários e seminaristas ao Brasil, entre os quais se encontrava Lunkenbein, que logo no ano seguinte fez seu noviciado em Pindamonhangaba (SP). Seguiram os estudos de filosofia e formação salesiana em Campo Grande (1960/1962). Entre 1963 e 1965 foi destinado para a Missão Salesiana de Meruri/MT, onde fez seus anos práticos como professor e educador com aulas para as crianças dos Bororo, dos fazendeiros e dos posseiros da região. Ainda encontrou tempo para mostrar suas habilidades para consertar motores e máquinas da missão, símbolos do progresso civilizatório e da missão desenvolvimentista.
            Ninguém falava ainda de demarcação da terra dos Bororo, os mesmos Bororo que Claude Lévi-Strauss, 40 anos antes tinha visitado. O antropólogo ilustre dedica elogios generosos e críticas severas à Missão Salesiana da época. Elogios, por ter junto com o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) conseguido acabar com os conflitos entre índios e colonos e por ter realizado “excelentes pesquisas etnográficas”. Críticas, ao chamar a atividade missionária dos discípulos de Dom Bosco “um empreendimento de extermínio metódico da cultura indígena”. Lévi-Strauss, que entre 1935 e 1939 era professor de sociologia na Universidade de São Paulo (USP), admite que esse extermínio não foi completo. Conta o antropólogo, que seu intérprete e principal informante na aldeia de Kejari, tempos antes tinha sido levado pelos missionários à Roma. Foi apresentado ao Papa por causa de suas habilidades bilíngues que demonstrariam o sucesso catequético da missão. Mas, depois do retorno à sua aldeia, conta o professor, o índio sofreu “uma crise espiritual, da qual se saiu reconquistado pelo velho ideal bororo: foi instalar-se em Kejari, onde desde há dez ou quinze anos, seguia uma vida exemplar de selvagem. Inteiramente nu, pintado de vermelho, com o nariz e o lábio inferior trespassados pela pequena barra e um adorno labial, o índio do Papa revelou-se como um maravilhoso professor de sociologia bororo” (Lévi-Strauss, p. 203). O antropólogo da França, pelo seu livro “Tristes Trópicos”, deu fama aos Bororo, o missionário da Alemanha ajudou na recuperação de seu território e deu a sua vida.

Adeus guerreira Kaiowá Guarani

Egon Heck


O sol amanheceu triste. Não sabia se ia dar o ar de sua graça, ou anunciar o nome da guerreira Léia, liderança e professora na Terra Indígena Nhanderu Marangatu, município de Antônio João, Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, falecida nesse dia 3 de junho. Momento de luto e de luta. A terra pela qual ela tanto lutou nas últimas duas décadas, a chamou antes de poder vê-la novamente em poder de seus habitantes originários.

 Léia incansável lutadora pelos direitos de seu povo e em especial das comunidades de Nhanderu Marangatu/ Campestre, procurou fazer do espaço da escola uma trincheira na luta pela terra, e formação de guerreiros, participantes ativos das lutas pelos seus direitos.

Ela viveu intensamente as lutas e contradições de seu povo. Juntamente com as lideranças Hamilton Lopes e Loretito empenhou-se para evitar a expulsão de seu povo da terra já demarcada e homologada pelo presidente Lula em março de 2005 e suspensa liminarmente pelo ministro do STF Nelson Jobim.


Para que o mundo saiba

“Venham, convidem as lideranças reunidas em Sombrerito. Venham testemunhar o que vai acontecer aqui. Venham ficar em vigília conosco. Queremos dizer ao mundo o que vão fazer conosco aqui amanhã”, dizia Léia, não conseguindo esconder seu nervosismo e indignação. Com os alunos e professores fizeram uma série de cartazes e faixas que no outro dia, iriam estar presentes na estrada da resistência, aguardando a polícia, com seu pelotão de choque para enfrentar um povo apenas armado com a esperança e secular resistência. E Léia lá estava com seus alunos e colegas testemunhando a covardia da expulsão, ameaças, voos rasantes de helicóptero, casas queimadas e um monte de prepotência. “Não somos bandidos. Queremos apenas a nossa terra”. Era 15 de dezembro de 2005. Dia de intenso sofrimento que jamais se apagará namemória da luta e resistência desse povo.

Domingo da Trindade Santa e a inclusão do Terceiro



O Papa Francisco nos lembra: “Acreditar num Deus único que é comunhão trinitária, leva a pensar que toda a realidade contém em si mesma uma marca trinitária” (cf. LS 239). Tudo está interligado: Deus, as pessoas, a natureza, o cosmo. “O mundo, criado segundo o modelo divino, é uma trama de relações” (LS 240), de relações trifásicas.

Se lembram ainda da “guerra do bem contra o mal” de Bush? Esse é o mundo binário, fanático, fundamentalista e excludente que elimina o outro. É o mundo dos justos contra os injustos, dos verdadeiros contra os mentirosos, dos deuses contra os demônios. Esse mundo não permite as diferentes cores da realidade social, psicológica e religiosa. Aplica as leis da física antiga às relações humanas de hoje.

A Trindade não aponta para a “terceira via” como resultado de um liquidificador que mistura tudo, mas para um salto qualitativo, dialético, messiânico, surpreendente. Esse salto resgata com sua memória subversiva o passado e antecipa o futuro.

Neste momento político, o Brasil precisa abandonar o sistema binário da luta dos bons contra os maus. O país necessita fazer um salto qualitativo para sua realidade profunda, que já contém a semente daquela possibilidade que está na nossa frente: a inclusão do Terceiro.
 Paulo Suess

Aliança dos Dom Quixotes com Santa Rita de Cassia



Causas impossíveis?



A esquerda partidária hegemônica, podre e autoritária, foi derrubada pela parceria igualmente podre e autoritária da socialdemocracia com a direita de setores ligados ao grande capital, a setores fascistas e ao fundamentalismo religioso. Não existe partido redentor para as causas redentoras dos pobres, dos outros ou da classe operária. Nunca existiu. Fora dos partidos e mesmo na clandestinidade partidária sobrevive um ou outro, não com cara redentora, mas com cara honesta, considerada ingênua, quixotesca no estilo de Pepe Mujica e Francisco Bergóglio. 

Estes não vão além de um mandato. Por um momento da história são freios de emergência para despertar em nós, novamente, o sonho do “bem viver” de todos. Nos restam duas possibilidades: invocar a Santa Rita, por ser a santa das causas impossíveis, ou construir a aliança dos Dom Quixotes.

Michael Löwy: O golpe de Estado de 2016 no Brasil




“Somos contra o golpe, não em favor de Dilma, que foi mais que negligente no trato dos povos indígenas. Mas se a história nos obriga a defender a democracia com a presidente Dilma, consideramos o valor da democracia o valor maior e a Dilma o mal menor”. (Paulo Suess)


"A prática do golpe de Estado legal parece ser a nova estratégia das oligarquias latino-americanas."

Por Michael Löwy

Do sitio da Ed. Boitempo.



Vamos dar nome aos bois. O que aconteceu no Brasil, com a destituição da presidente eleita Dilma Rousseff, foi um golpe de Estado. Golpe de Estado pseudolegal, “constitucional”, “institucional”, parlamentar ou o que se preferir. Mas golpe de Estado. Parlamentares – deputados e senadores – profundamente envolvidos em casos de corrupção (fala-se em 60%) instituíram um processo de destituição contra a presidente pretextando irregularidades contábeis, “pedaladas fiscais”, para cobrir déficits nas contas públicas – uma prática corriqueira em todos os governos anteriores! Não há dúvida de que vários quadros do PT estão envolvidos no escândalo de corrupção da Petrobras, mas Dilma não… Na verdade, os deputados de direita que conduziram a campanha contra a presidente são uns dos mais comprometidos nesse caso, começando pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (recentemente suspenso), acusado de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão fiscal etc.

A prática do golpe de Estado legal parece ser a nova estratégia das oligarquias latino-americanas. Testada em Honduras e no Paraguai (países que a imprensa costuma chamar de “República das Bananas”), ela se mostrou eficaz e lucrativa para eliminar presidentes (muito moderadamente) de esquerda. Agora foi aplicada num país que tem o tamanho de um continente…

Podemos fazer muitas críticas a Dilma: ela não cumpriu as promessas de campanha e faz enormes concessões a banqueiros, industriais, latifundiários. Há um ano a esquerda política e social cobra uma mudança de política econômica e social. Mas a oligarquia de direito divino do Brasil – a elite capitalista financeira, industrial e agrícola – não se contenta mais com concessões: ela quer o poder todo. Não quer mais negociar, mas sim governar diretamente, com seus homens de confiança, e anular as poucas conquistas sociais dos últimos anos.


Citando Hegel, Marx escreveu no 18 de Brumário de Luís Bonaparte que os acontecimentos históricos se repetem duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Isso se aplica perfeitamente ao Brasil. O golpe de Estado militar de abril de 1964 foi uma tragédia que mergulhou o Brasil em vinte anos de ditadura militar, com centenas de mortos e milhares de torturados. O golpe de Estado parlamentar de maio de 2016 é uma farsa, um caso tragicômico, em que se vê uma cambada de parlamentares reacionários e notoriamente corruptos derrubar uma presidente democraticamente eleita por 54 milhões de brasileiros, em nome de “irregularidades contábeis”. O principal componente dessa aliança de partidos de direita é o bloco parlamentar (não partidário) conhecido como “a bancada BBB”: “Bala” (deputados ligados à Polícia Militar, aos esquadrões da morte e às milícias privadas), “Boi” (grandes proprietários de terra, criadores de gado) e “Bíblia” (neopentecostais integristas, homofóbicos e misóginos). Entre os partidários mais empolgados com a destituição de Dilma destaca-se o deputado Jair Bolsonaro, que dedicou seu voto aos oficiais da ditadura militar e nomeadamente ao coronel Ustra, um torturador notório. Uma das vítimas de Ustra foi Dilma Rousseff, que no início dos anos 1970 era militante de um grupo de resistência armada, e também meu amigo Luiz Eduardo Merlino, jornalista e revolucionário, morto em 1971 sob tortura, aos 21 anos de idade.

O novo presidente, Michel Temer, entronizado por seus acólitos, está envolvido em vários casos suspeitos, mas ainda não é alvo de investigação. Uma pesquisa recente perguntou aos brasileiros se eles votariam em Temer para presidente da República: 2% responderam que sim…


Em 1964, grandes manifestações “da família com Deus pela liberdade” prepararam o terreno para o golpe contra o presidente João Goulart; dessa vez, multidões “patrióticas” – influenciada pela imprensa submissa – se mobilizaram para exigir a destituição de Dilma, em alguns casos chegando a pedir o retorno dos militares… Formadas essencialmente por brancos (os brasileiros são em maioria negros ou mestiços) de classe média, essas multidões foram convencidas pela mídia de que, nesse caso, o que está em jogo é “o combate à corrupção”.

O que a tragédia de 1964 e a farsa de 2016 têm em comum é o ódio à democracia. Os dois episódios revelam o profundo desprezo que as classes dominantes brasileiras têm pela democracia e pela vontade popular.


O golpe de Estado “legal” vai transcorrer sem grandes obstáculos, como em Honduras e no Paraguai? Isso ainda não é certo… As classes populares, os movimentos sociais e a juventude rebelde ainda não deram a última palavra.

Pentecostes, a alegria de Francisco e a resistência nossa


"Sejamos realistas, sem perder a alegria, 

a audácia e a esperança" (EG 109)




        Na Festa de Pentecostes recordamos a plenitude do mistério pascal com o dom do Espírito Santo. O Espírito Santo é, segundo Santo Agostinho, Deus no gesto do dom, da doação e da gratuidade. A Igreja conhece sete dons do Espírito: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, conhecimento, piedade, temor de Deus. Os dons produzem frutos nas comunidades. O catecismo nos fala de 12 frutos do Espírito Santo: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, mansidão, fidelidade, modéstia, moderação, domínio próprio (Gl 5,22s). E os frutos apontam para duas tarefas: a missão e o perdão (cf. Jo 20,21.23).

        Com a Papa Francisco, um destes frutos ganhou especial destaque: a alegria. Ela aparece em dois títulos dos seus documentos: na Exortação Evangelii gaudium (Alegria do Evangelho) e na Exortação Amoris laetitia (Alegria do Amor), que sintetiza os resultados do Sínodo dos Bispos sobre a Família (2015).

        Parece que há um déficit de alegria entre os cristãos. Nietzsche, o filósofo e filho de uma família de pastores, justificou seu ateísmo com a aparência cristã de reprimidos e não de redimidos. O Papa Francisco fala da “cara de funeral” (EG 10) de certos evangelizadores. Diz Nietzsche: “Canções melhores os cristãos teriam de me cantar, deveriam ter mais a aparência de redimidos para que eu aprendesse acreditar em seu redentor”.

        Com sua ênfase na “alegria”, o Papa Francisco retoma outros dois documentos do magistério recente da Igreja, a Exortação Apostólica, de Paulo VI, “Sobre a Alegria Cristã: Gaudete in Domino (Alegrai-vos no Senhor)”, de 1975, e a Constituição Pastoral Gaudium et spes (Alegria e esperança) no mundo de hoje, de 7 de dezembro de 1965, promulgada no último dia do Concílio Vaticano II.


        Desde os primórdios do cristianismo, a alegria é uma força de resistência mais eficaz que os antidepressivos da farmácia (cf. EG 263). A polaridade entre alegrias e angústias, entre esperanças e tristezas de pessoas “lesadas em seus direitos” (EG 191), é também fonte de energia. Para muitos, a depressão política deste momento necessita mais do que 20 mg de Prozac. Precisa “a dinâmica do êxodo e do dom, de sair de si mesmo, de caminhar e de semear sempre de novo, sempre mais além” (EG 21), “procurando acender o fogo no coração do mundo” (EG 271).




Os paradigmas do Papa Francisco: Missionariedade, Marginalidade, Sinodalidade


A missão de caminhar juntos para a periferia

Paulo Suess


     Os paradigmas com suas dimensões eclesiológicas, pastorais e teológicas, que se revelam cada vez com mais clareza como estruturantes do pensamento do Papa Francisco, são os seguintes:

Caminhar juntos: Refugiados em Lesbos
- missionariedade como núcleo da Igreja evangelizadora em saída;

- marginalidade da periferia existencial e geográfica como lugar teológico do encontro com marginalizados e marginais, fugitivos e refugiados, pobres e feridos, excluídos e não reconhecidos;

- sinodalidade, misericórdia e alegria como modos de operação entre saída da acomodação e chegada, permanência e vida partilhada nas periferias.

       
A teologia de Francisco não se resume num almanaque de imperativos pastorais desconexos que precisam ser vigiados pelo Prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé. Trata-se de uma teologia trinitária e profética, pastoral e espiritualmente orientada. A Trindade pode ser compreendida como mandala da fé e de Deus. Essa mandala integra o múltiplo e o diferente na unidade do Espírito Santo: A horizontalidade universal do Pai, a verticalidade do Filho encarnado e a circularidade do Espírito Santo, enviado para dobrar a rigidez do centro, consolar os que sofrem, defender os pobres e os que o mundo não reconhece em sua dignidade.
       
O Pai, que é amor, é também o protomissionário que envia. Ele é o início e o fim da missão. O Filho, que é caminho, convoca e envia a comunidade missionária que no Concílio dos Apóstolos em Jerusalém encontrou na sinodalidade um modus operandi (cf. At 15). O Espírito Santo, que antecipa com sua presença a chegada dos discípulos missionários, é “descanso na luta, brisa no calor, conforto no pranto” (cf. Sequência de Pentecostes). Nas margens da periferia, Deus torna-se Pai dos pobres no Espírito Santo. Deus-amor forja o caminhar juntos, o caminho misericordioso e alegre da sinodalidade no Espírito. A periferia é o lugar do nada e do tudo, o despojamento radical e a plenitude. É o lugar onde Deus coloca seu berço humano e sua cruz divina. A periferia, que é limite geográfico-histórico e existencial, é também lugar de passagem, ou pelo portal da morte e do retorno à acomodação ou pelo portal da vida histórica e escatológica que se revela na fidelidade da resistência.


1. A missão
       
 A missão é ordem e obra do amor de Deus. Ele nos amou primeiro (1Jo 4,19). E nesse amor ele nos deu a ordem de sair de qualquer tipo de instalação. “Na Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de «saída»” (EG 20), que nos lembra a Evangelii gaudium. “Abraão aceitou o chamado para partir rumo a uma nova terra [cf. Gn 12,1-3]. Moisés ouviu o chamado de Deus: «Vai; Eu te envio» [Ex 3,10], e fez sair o povo para a terra prometida [cf. Ex 3,17]. A Jeremias disse: «Irás aonde Eu te enviar» [Jr 1,7]. Naquele «ide» de Jesus, estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova «saída» missionária” (EG 20).


        Qual é a finalidade dessa saída? A EG aponta para uma metodologia com quatro pilares de uma pastoral em chave missionária (EG 33ss):

a) Abandonar o cômodo critério pastoral, seu imobilismo e tradicionalismo: “fez-se sempre assim” (EG 33).

b) “Ouvir a todos” (EG 31). Faz parte de um “processo participativo” que promove “uma comunhão dinâmica, aberta, missionária” (EG 31) e sinodal.

c) “Saída de si próprio para o irmão” (EG 179). A Igreja em saída é uma Igreja despojada com as portas abertas (cf. EG 46). No outro “está o prolongamento permanente da Encarnação para cada um de nós” (EG 179). A “resposta à doação absolutamente gratuita de Deus” (EG 179) é a saída de si como “absoluta prioridade” da vida cristã. “A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros. Isto é, definitivamente, a missão” (EG 10).

d) Concentrar-se “no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário” (EG 35). “As elaborações conceituais hão de favorecer o contato com a realidade que pretendem explicar, e não nos afastar dela” (EG 194).

        Como operacionalizar essa saída? “Sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias”? (EG 20). A Igreja “em saída” encontra obstáculos. A saída exige “prudência e audácia” (EG 47), “coragem” (EG 33, 167, 194) e “ousadia” (EG 85, 129). O modelo dessa missionariedade é a itinerância do próprio Jesus.

        Quem se propõe a “ser o fermento de Deus no meio da humanidade” (EG 114) está sempre em busca de “respostas que encorajem, deem esperança e novo vigor para o caminho” (ibid.) do povo de Deus. Essa Igreja cumpre a sua missão quando se torna “o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho” (EG 114).

        Os verbos preferenciais de Francisco, para caracterizar a visão de uma Igreja, que é por sua natureza missionária (AG 2, DAp 347), são: abrir, sair, caminhar, converter (transformar), priorizar, despojar e diversificar na unidade do Espírito Santo. Enfim, a missão tem sua raiz e seu fim não na propaganda nem nas múltiplas atividades nossas, mas na atração do Deus trino e uno que se encarnou em nosso meio: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32).


2. A margem
        
Lugar de atuação e horizonte da “Igreja em saída” são as periferias. Ser Igreja em saída para as margens não é natural, é opção que “deriva da nossa fé em Cristo, que Se fez pobre e sempre Se aproximou dos pobres e marginalizados” (EG 186). As periferias, que são lugares de encontro com os marginalizados e os marginais, os fugitivos e os refugiados, com os desesperados e os excluídos, são também lugares do encontro com Deus, que no presépio se fez pequeno; no Egito se fez um refugiado; no monte das oliveiras, um desesperado; no tribunal da época, um acusado; na cruz, um condenado à morte e, aparentemente, um abandonado por Deus e pela humanidade.



      Pela encarnação, Deus tem experiência com as periferias existenciais e geográficas. Além do sacrário, a periferia é o lugar seguro do encontro com esse Deus anônimo, escondido e fiel. Se a Evangelii gaudium nos diz: “Todos somos convidados a aceitar este chamado: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20), não quer dizer que as periferias são lugares das trevas. O sofrimento, o abandono e o pecado podem obscurecer nosso tempo de vida e aprofundar nossa solidão. Mas, é tarefa da missão mostrar que a luta pela vida é a luta pela glória de Deus que irrompe nas trevas históricas, na audácia do líder tupinambá Babau, na gratuidade da vida da Irmã Dorothy Stang, na solidariedade dos mártires da UCA de El Salvador, na fidelidade dos sete mártires de Tibhirine, na Argélia. Todos eles, que vieram da grande aflição das periferias, souberam viver “a afetividade irmanada com a racionalidade da luta; a eficácia na loucura da gratuidade” (Plano Pastoral do Cimi, n. 86) tentando construir um mundo para todos. Eles não precisam de holofotes nem da propaganda midiática, “não precisam de sol nem de lua para sua iluminação, pois a glória de Deus é a sua luz e a sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21,23).

        Visando a vida para todos, Francisco pode generalizar: “No coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres, tanto que até Ele mesmo «Se fez pobre» (2Cor 8,9). Todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres” (EG 197). Ouvir o clamor dos pobres não é um mérito especial, mas expressão da nossa fé na presença de Deus e expressão da nossa indignação contra aqueles que tentam apagar essa glória de Deus no meio dos marginalizados.

        Nesse contexto, o Papa Francisco cita longamente os Bispos do Brasil: “Desejamos assumir, a cada dia, as alegrias e esperanças, as angústias e tristezas do povo brasileiro, especialmente das populações das periferias urbanas e das zonas rurais – sem terra, sem teto, sem pão, sem saúde – lesadas em seus direitos. [...] Escandaliza-nos o fato de saber que existe alimento suficiente para todos e que a fome se deve à má repartição dos bens e da renda” (EG 191).

        Esse privilégio da periferia não seria uma quebra do princípio evangélico da igualdade? O papa responde com clareza: “Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, «àqueles que não têm com que te retribuir» (Lc 14, 14). [...] Hoje e sempre, «os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho», e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos! (EG 48). Este vínculo entre a fé e os pobres “tem consequências na vida de fé de todos os cristãos [...] Inspirada por tal preferência, a Igreja fez uma opção pelos pobres” (EG 198). E essa é a opção da Igreja povo de Deus. Não se trata de preferências setoriais ou individualistas. Priorizar as periferias e preocupar-se com elas são tarefas da Igreja como comunidade missionária e de seu caminhar na unidade e diversidade do Espírito Santo.


3. O Sínodo

        
Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco sublinhou a importância do Sínodo como atualização do espírito da sinodalidade e colegialidade. Em sua entrevista programática com o padre Antonio Spadaro, SJ, de agosto de 2013, na Casa Santa Marta, Francisco falou de sua visão da sinodalidade: “Devemos caminhar juntos [...]. A sinodalidade vive-se em vários níveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do sínodo, porque a atual parece-me estática. [...] Nas relações ecumênicas, isto é importante: não só conhecer-se melhor, mas também reconhecer o que o Espírito semeou nos outros como um dom também para nós” (SPADARO, Entrevista, Paulus/Loyola, 2013, p. 24). Perguntado sobre sua visão da unidade, Francisco respondeu: “Devemos caminhar unidos nas diferenças. Não há outro caminho para nos unirmos. Este é o caminho de Jesus” (ibid.). Por isso, deve-se tornar os sínodos “menos rígidos na forma. [...] Quero que seja uma consulta real, não formal” (ibid., p. 16). “Pouco temos avançado neste sentido. Também o papado e as estruturas centrais da Igreja universal precisam ouvir esse apelo a uma conversão pastoral. [...] Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e sua dinâmica missionária” (EG 32).

 Em seu discurso por ocasião da comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, dia 17 de outubro de 2015, o Papa Francisco qualificou o Sínodo como “um dos legados mais preciosos da última sessão conciliar. [...] O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio” (Discurso, www.vatican.va /17.10.2015, p. 2). “Igreja sinodal” é um pleonasmo, porque, segundo João Crisóstomo (+407), “Igreja e Sínodo são sinônimos” (ibid. p. 4). O papa dá nesse discurso uma verdadeira aula sobre a função da sinodalidade na Igreja. “Estou convencido de que, numa Igreja sinodal, também o exercício do primado petrino poderá receber maior luz. O Papa não está, sozinho, acima da Igreja; mas, dentro dela, como batizado entre batizados” (Discurso, l.c. p. 6).

      
  Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta. O Papa Francisco pratica essa escuta ao citar como fontes de seus escritos muitas Igrejas locais e também o magistério científico dos teólogos. “É uma escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender”. A sinodalidade é vivida por sujeitos ativos de evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ações. O sensus fidei impede uma rígida separação entre Ecclesia docens e Ecclesia discens” (Discurso, l.c., p. 2). Para os discípulos de Jesus “a única autoridade é a autoridade do serviço, o único poder é o poder da cruz” (ibid. p. 4.). E essa autoridade do serviço se realiza nos três níveis de uma “Igreja toda sinodal” (ibid., p. 5): nas Igrejas particulares, nas Conferências Episcopais e na Igreja universal, ou dito de modo mais simples: nas comunidades e paróquias, nas dioceses e no Vaticano.

        Como se pode perceber, a sinodalidade toca hoje em pontos nevrálgicos da Igreja católica: ministerialidade, colegialidade, ecumenismo, magistério partilhado, autoridade como serviço, exercício do papado e de sua conversão (Discurso, l.c., p. 6). A sinodalidade tem um grande valor para a Igreja e o mundo, pois, apesar de invocar participação, solidariedade e transparência na administração dos assuntos públicos, frequentemente entrega o destino de populações inteiras nas mãos gananciosas de grupos restritos de poder. [...] Cultivamos o sonho de que a redescoberta da dignidade inviolável dos povos e da função de serviço da autoridade poderão ajudar também a sociedade civil a edificar-se na justiça e na fraternidade” (ibid., p. 6).

        A “redescoberta” aponta para práticas, hoje, esquecidas. O “sonho” alimenta a esperança na possibilidade de um projeto do bem viver para todos. A força de suscitar essa memória e prática da dignidade inviolável, e de sustentar esse desejo do bem viver está em cada um de nós. Está no reconhecimento dos outros em sua alteridade, na opção de amá-los em sua pobreza e na disposição de resistir com eles contra as múltiplas ofertas de uma vida alienada.