Madre Teresa, uma santa que não acreditava em Deus



Madre Teresa, religiosa conhecida por sua obra de caridade favelas da Índia, foi canonizada durante a manhã de domingo, 4 de setembro de 2016 no Vaticano. A cerimônia, celebrada pelo papa Francisco, foi acompanhada por uma multidão de 120 mil pessoas diante da Basílica de São Pedro.


Leonardo Boff

Tudo é político, mas o político não é tudo. Há outras dimensões na vida que merecem a nossa atenção e que nos levam a refletir sobre a condição humana, mesmo de pessoas  que consideramos santas.Quero me referir  à noite escura que a recém canonizada Madre Teresa de Calcultá viveu e sofreu desde 1948 até a sua morte em 1997. Temos os testemunhos recolhidos pelo postulador de sua causa, o canadense Brian Kolodiejchuk num livro Come Be My Light (Venha, seja a minha luz).

Como é notório, Madre Teresa vivia em Calcutá recolhendo moribundos das ruas para que morressem humanamente dentro de uma casa e cercados de pessoas. Fazia-o com extremo carinho e completa abnegação. Tudo indicava que o fazia a partir de uma profunda experiência de Deus.

Qual não é a nossa surpresa, quando viemos saber de seu profundo desamparo interior, verdadeira noite sem estrelas e sem esperança de um sol nascente. Essa paixão dolorosa durou por quase 50 anos até a sua morte. Já em agosto de 1959 escrevia a um de seus diretores espirituais:”Em minha própria alma sinto uma dor terrível. Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que Ele verdadeiramente não existe”.

Numa outra ocasião escreveu:”Há tanta contradição em minha alma: um profundo anelo de Deus, tão profundo que me faz mal; um sofrimento contínuo e com ele o sentimento de não ser querida por Deus, rejeitada, vazia, sem fé, sem amor, sem cuidado; o céu não significa nada para mim, parece-me um lugar vazio”.

Canonização na Praça de São Pedtro
Sabemos que muitos místicos testemuham esta experiência de obscuridade. Constatamo-lo em São João da Cruz, em Santa Teresa D’Avila, em Santa Teresa de Lisieux, entre outros. Esta última, tão meiga e expressão da mística das coisas cotidianas, escreveu em seu Diário de uma Alma:” Não creio na vida eterna; parece-me que depois desta vida mortal, não existe nada: tudo desapareceu para mim, não me resta senão o amor”.

Conhecida é a noite escura de São João da Cruz, tão bem expressa em seu poema “La noche oscura”. Ele distingue duas noites escuras: uma, a noite dos sentidos pela qual a alma vive sem consolos espirituais e numa severa secura interior. A outra é a noite do espírito “oscura y terrible” na qual a alma já não consegue crer em Deus, chega a duvidar de sua existência e se sente condenada ao inferno.

Especialmente a modernidade, centrada em si mesma e perdida dentro imenso aparato tecnológico que criou, vive também esta ausência de Deus que Nietzsche qualificou como “a morte de Deus”. Não que Deus tenha morrido, porque então ele não seria Deus. Mas é o fato de que nós o matamos, vale dizer: ele não é mais um centro de referência e de sentido. Vivemos errantes, sós e sem esperança.

Dietrich Bonhöffer, teólogo mártir do nazismo, captou esta experiência, aconselhando-nos a viver “como se Deus não existisse” (etsi Deus non daretur). Mas vivendo no amor, no serviço aos demais e no cultivo da solidariedade e do cuidado essencial. Pois esses são os valores sob os quais Deus se esconde. Quem os vive, mesmo sem o saber, está em Deus.

Suspeitamos que Jesus conheceu esta noite terrível. No Jardim das Oliveiras sentiu-se tão só e angustiado que chegou a suar sangue, expressão suprema do pavor. No alto da cruz, grita ao céu:”Pai, por que me abandonaste?” Não obstante essa ausência de Deus, se entrega confiante: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Despojou-se de tudo. A resposta veio na forma da ressurreição como a plenitude da vida.

A noite escura de Madre Teresa a ponto de dizer:”Deus verdadeiramente não existe” nos deixa uma interrogação teológica. Ela descompõe todas as nossas representações de Deus. “Deus ninguém jamais viu”atestam as Escrituras. Portanto, não há como descrevê-lo. E quando o tentamos é apenas  o “nosso saber não sabendo, toda ciência transcendendo” no dizer de São João da Cruz. Crer em Deus não é aderir a uma doutrina ou dogma. Crer é uma atitude e um modo de ser no mundo com os outros, no amor, na solidariedade e no perdão; é aderir à uma esperança que é “a convicção das realidades que não se veem” (Hebreus 11,1), porque o invisível é parte do visível. Crer é a coragem de amar o invisível pois ele esconde o sentido secreto e último de todas as coisas. Crer é uma aposta no dizer de Pascal que conheceu também a sua noite escura, uma aposta que a vida vale mais que os bens materiais, que a luz tem mais direito que as trevas e que ao sentido cabe a última página da vida e da história.

Simone Weil, a judia que, na última guerra, se converteu ao cristianismo mas não se deixou batizar em solidariedade a seus irmãos condenados às câmaras de gás, nos dá uma pista de compreensão sobre onde encontrar Deus mesmo no meio da mais absoluta escuridão como aquela de Madre Teresa e de tantos homens e mulheres espirituais que vem um tormento interior: “Se quiseres saber se alguém crê de Deus, não repare como fala de Deus mas como fala do mundo”, se fala na forma da solidariedade, do amor e da compaixão. Deus não pode ser encontrado fora destes valores. Quem os vive está na direção dele e junto dele mesmo que o negue.

Madre Teresa de Calcutá, em sua noite escura, mas cheia de amor aos moribundos, estava em comunhão com o Deus abscôndito. Agora que já se transfigurou viverá em plena luz e saboreará a presença de Deus face a face na mais profunda intimidade e na comunhão sem fim.

Leonardo Boff é teólogo e articulista do JB on line


Resonância da palavra de Ñanderu - Teologia Índia




O tema central do VIIIo Encontro Continental de Teologia Índia, realizado em Panajachel/Guatemala, entre os dias 28 a 30 de setembro de 2017, foi “A palavra de Deus na Palavra dos povos indígenas”. Um dos objetivos da Teologia India é a descolonização da vida dos povos indígenas e de setores eclesiais ainda não familiarizados com a proposta do Vaticano II. e do Papa Francisco nem com pressupostos básicos da modernidade como participação democrática, reciprocidade do ouvir e falar e reconhecimento da alteridade. Procuramos ouvir a Palavra de Deus e captar a sua ressonância não só em nossos livros sagrados, mas também nos livros sagrados, nas revelações e nos ritos sacramentais de todos os povos. Não se trata de ouvir “a mesma coisa” nas culturas dos outros, mas de ouvir o mesmo Deus em seus projetos diferentes de vida. A nossa fé não é autossuficiente. Para se manter viva, ela precisa se fecundar através de múltiplas escutas da palavra de Deus sempre culturalmente situada. O intercâmbio entre ouvir e falar, em registros diferentes mas através de raizes e horizontes semelhantes, aponta para o futuro comum de esperança através de diferentes modos de ser e numa sociedade na qual o bem viver de uma classe social depende da negação das condições de vida da outra. Nas lutas pelo bem viver de todos temos um longo caminho pela frente.

1. A palavra de Deus na palavra dos povos guarani

A cultura guarani está construída sobre três colunas, sobre a reza, o canto e a dança. O teto que protege e une esses pilares para configurar um abrigo, uma casa-território, um espaço de identidade, é a palavra. Essa palavra atravessou os três tempos e mundos de que a memória guarani nos fala:

- O tempo antigo com seu mundo mítico, som sua metafísica e escatologia, que era o tempo da generosidade e reciprocidade. A palavra exemplar se manifesta no mito, considerado a experiência autêntica e originária da realidade. O mito aparece em rezas, hinos e relatos, transmitidos por líderes religiosos. A palavra é substância simultânea do divino e do humano. Os guarani só podem viver segundo a sua substância-palavra.

A criação da palavra e dos pais e mães da humanidade antecedeu a criação da primeira terra. No mito dos Mbyá, “criou nosso Pai o fundamento da linguagem humana e a tornou parte de sua própria divindade, antes de existir a terra (…) tendo refletido, profundamente, da sabedoria contida na sua própria divindade, e, em virtude da sua sabedoria criadora, criou aqueles que seriam companheiros e companheiras de sua divindade (cf. Cadogan, 1959, p. 19.21).
- O tempo antigo representa uma crítica radical à sociedade real do segundo tempo, marcado pela conquista, pela escravidão, pelas Reduções, pela industrialização e urbanização, por matanças, e pela expulsão de seus territórios, até hoje.

- A metafísica guarani é política. Ela sustenta a esperança de um terceiro tempo no qual um outro mundo é possível, às margens ou depois do capitalismo neoliberal. A interpretação da história pelos guarani “não é apolítica, pois seus mitos emprestam imagens, linguagem e sentido às bandeiras de luta política. Valha como exemplo o poder mobilizador das assembleias politico-religiosas, Aty Guasu, nas últimas décadas” (Chamorro, 2015, Introdução).

Palavra, na cultura guarani, pode significar voz, fala, linguagem, alma, nome, vida, pajelança, cura, poesia, canto, nome, origem, personalidade, identidade e projeto. A palavra, “quando signo, ela se destina à comunicação; quando valor, é um fim em si mesma. Nela se originam todos os sinais (cf. H. Clastres, 1978, p. 88s). Ela é palavra-verbo, mais do que palavra-substantivo. De uma ou outra maneira, essa palavra é sempre ritualizada: na reza, no canto e na dança, na pajelânça, na memória, nas referências históricas. “A história de um guarani é a história de suas palavras” (Meliá, 31.05.2010, Entrevista, Unisinos). Para o guarani, a palavra é tudo e tudo para ele é palavra, nos diz Bartomeu Melià (cf. 1989, p. 306). A palavra é a afirmação da vida. No mundo de hoje a palavra sofre um desgaste pelo excesso de uso em sua função comunicativa. Os guarani são mais preocupados em celebrar a linguagem do que em servir-se dela. Souberam manter com ela essa relação interior que é já em si mesma aliança com o sagrado (cf. P. Clastres, 1990), um canto geral que desperta o sonho do outro mundo possível. A palavra-linguagem guarani reune as pessoas e rompe os laços que os prendem a tudo aquilo que não é divino. A palavra guarani constitui realidade (speech act). A fala não só comunica, mas cria, como a palavra dabar, no Antigo Testamento.
Entre os guarani não há donos da palavra, nem palavras domesticadas por um dogma. Há sábios que não escreveram, mas que com sua palavra criaram poesias e profecias para nosso mundo. Estes sábios, que poderíamos chamar de `teólogos´, elaboraram um discurso aberto com a possibilidade de muitos discursos que garantem um espaço de liberdade, que os guarani prezam acima de tudo. Essa não-dogmatização da palavra, essa abertura em múltiplas direções permitiu aos guarani criar um espaço ideológico aberto para incorporar sem dificuldade elementos de outros sistemas religiosos, sejam eles objetos sagrados (cruz) ou personagens (Noé, Jesus Cristo), gestos rituais e escatologias. Mas essas incorporações não produziram um sincretismo ou relativismo religioso do “vale tudo”. O significado dado a essas incorporações tem sua raiz no sistema (na cultura) guarani. Prevalece sempre a semântica guarani na liberdade carismática de um povo místico. Depois de muitos anos de convivência com grupos guarani, o jesuíta Melià chegou a conclusão: os guarani nunca foram convertidos. E nós podemos acrescentar: A conversão do outro não é o objetivo da pastoral indígena. O objetivo da pastoral indígena é a presença, o encontro, a solidariedade, o caminhar juntos na diferença e o intercâmbio, a perspectiva do bem viver e o diálogo com as razões da nossa esperança.
A metafísica guarani, dissemos, orienta a política guarani. Uma senhora guarani, muito idosa, foi perguntada: “Porque vocês insistem agora nas retomadas de suas terras, num contexto, estratégicamente, tão desfavorável”? Ela respondeu: “Ñanderu mandou dizer: está na hora”. Quando no Congresso de Brasília são tratadas questões que atingem os indígenas no Brasil, sempre se encontra um grupo para realizar suas danças, rezas, cânticos, às vezes com um sucesso espetacular, como aquela vez quando apagou a luz no Congresso (um fato inédito porque também os motores de reserva não podiam ser mais acionados) e os deputados não conseguiram mais tratar a questão da PEC 215 (“marco temporal”) naquele ano.

Essa influência da metafísica (da religião) guarani na política se deve a não-separação entre mundo transcendente e a realidade histórica palpável. A diferença entre mortais e imortais é quase nula. Pela filosofia grega e, mais tarde, pela modernidade, entrou no cristianismo uma certa dicotomia entre esses dois mundos, entre o mundo espiritual e o mundo material. “Se os guarani se manifestam hoje como místicos e teólogos, não é devido a influências cristãs. O pensamento guarani é irredutível por tratar-se de uma imanência profunda do divino no humano” (Viveiros de Castro, Nimuendajú 1987, XXXIII). As missões foram lugar de redução linguística, de empobrecimento da linguagem religiosa, mas não conseguiram atingir o âmago do ser guarani.
“Palavra” na cultura guarani, pode significar “alma”. Na tradição guarani, a pessoa não tem alma, ela é alma. Ela é palavra-alma. A alma “designa o indivíduo integralmente. Alma é o próprio `eu´” (Chamorro, 1998, p. 48). Alma significa “identidade”. E essa alma tem nome próprio que é revelado no batismo da criança. O xamã revela esse nome, que lhe foi indicado no sonho, marcando assim a recepção oficial da nova palavra na comunidade. Cada pessoa é uma encarnação da palavra.
Na crise, a palavra-nome, a palavra-alma, sofre uma dissociação ou fragmentação que causa doença. Ao trazer a palavra de volta significa cura. A palavra mantem o guarani em pé. “É a verticalidade assegurada pela palavra que diferencia o ser humano vivo dos outros seres e dos humanos mortos, doentes ou sem nome” (Chamorro, ibid. p. 49). A palavra humaniza. Quando a palavra não tem mais lugar na pessoa, ela morre. Os que restauram a palavra são procurados para salvar um moribundo da morte.
Nossa sociedade de hoje, focada no lucro e na política corrompida pelas máximas do grande capital, para a palavra e a alma guarani tem cada vez menos lugar. A palavra hegemônica é dada àqueles que defendem a expansão da soja, da cana de açúcar, do pasto do gado, do plantio de eucalipto, das hidreléctricas, das promessas falaciosas da economia verde e sustentável.
         A serenidade é uma das virtudes mais desejadas pelos líderes espirituais guarani. Como ser um bom agrigultor, sem terra? Para quem contar a história e a sabedoria dos tempos primordiais numa sociedade na qual essa história e essa sabedoria são castigadas com fome e penúria? No exato momento em que formulei essas perguntas, recebi um e-mail de Genebra: O Eliseu, o lider guarani-kaiowa do Mato Grosso do Sul está falando na ONU, denunciando a política brasileira do estrangulamento dos povos indígenas. Ainda existem lugares, onde a voz profética dos guarani é escutada.


2. Caminhar na esperança

As lutas dos povos indígenas por terra e qualidade de vida apontam para as exigências da justiça e para a dinâmica da esperança. Ciclicamente, rompem o círculo de giz da normalidade do absurdo. As retomadas de terra são saídas das molduras dentro das quais os governos colocaram os povos indígenas na parede para comemorarem seu passado e negarem seu futuro. O pulo das molduras do imaginário oficial para a realidade histórica caracteriza a passagem da tutela à autodeterminação. E essas lutas não são lutas isoladas. É a luta dos pobres por comida, dos refugiados por um espaço de paz, dos operários por trabalho, dos excluídos por participação, dos povos indígenas por terra para viver. A partir da humanidade crucificada, emerge um Terceiro Sujeito (depois da “burguesia” e da “classe operária”) que permite novamente falar de utopias, esperança, transformação estrutural e projeto alternativo.
A humanidade crucificada sustenta o sonho da igualdade na diferença, da gratuidade e da partilha, da sociedade sem classes, sem castas e sem discriminações de gênero e etnias. Ao mesmo tempo que ela avança na marcha para a igualdade e paz, ela suspende a marcha do “homem econômico” que procura fechar as últimas fendas do seu calabouço de necessidades, construindo – a partir de seu projeto lucrativo - a sua prisão perpétua.
A humanidade crucificada que “vem da grande aflição” (Apc 7,14), articula o “princípio da realidade” com o “princípio esperança”. Para os cristãos, esse “princípio esperança” está ancorado na libertação definitiva e universal, prefigurada na ressurreição de Jesus. Desde a justiça da ressurreição que rasgou a sentença dos injustiçados, sabemos que a utopia da “vida eterna” é inseparável da compaixão vulnerável de Deus para com a humanidade crucificada. Em Jesus Cristo, o trono de Deus se tornou cruz (Ro 3,25) e Sua glória, a vida dos povos indígenas junto com toda a humanidade.
Paulo Suess
[Elementos da palestra apresentada no dia 28.09.2016 durante o VIII Encontro Continental de Teologia Índia, Guatemala, organizado pela Articulación Ecuménica Latinoamericana da Pastoral Indigena (Aelapi).]


Referências bibliográficas
Cadogan, León. Ayvu rapyta (O fundamento do dizer: textos míticos de los Mbyá-Guaraní del Guairá. Boletim. São Paulo, USP, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (227): 1-227, 1959.
Chamorro, Graciela. A espiritualidade guarani: Uma Teologia Ameríndia da Palavra. São Leopoldo, Instituto Ecumênico de Pós-Graduação/Editora Sinodal, 1998.
Chamorro, Graciela. História Kaiowa. Das origens aos desafios contemporâneos. São Paulo, Nhanduti, 2015.
Clastres, Hélène. Terra sem mal. São Paulo, Brasiliense, 1978.
Clastres, Pierre. A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos índios guarani. Campinas, Papirus, 1990.
Melià, Bartomeu. A experiência religiosa guarani, in: Marzal, Manuel et al., O rosto índio de Deus. Petrópolis (RJ), Vozes, 1989, p. 293-357.
Melià, Bartomeu. A história de um guarani é a história de suas palavras. Entrevista, in: Revista do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), São Leopoldo (RS), n. 331, 31.05.2010.
Suess, Paulo. Por uma “Terra sem mal”. Mito guarani e projeto de sororidade. In: Encontros Telógicos. Instituto Teológico de Santa Catarina (Itesc), Ano 16/2, n. 31, 2001, p. 133-148. Uma versão mais ampla in: Revista Eclesiástica Brasileira (REB), fasc. 244 (dezembro 2001), p. 854-876.
Suess, Paulo. Povos da madrugada em busca de alternativas. In: Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Outros 500: Construindo uma nova história. São Paulo, Salesiana, 2001, p. 192-199.
Suess, Paulo. Romper o mal-estar na missão. Os povos indígenas e a Igreja pós-conciliar. Perspectiva Teológica, XXXIV/92 (Jan./Abr. 2002), p. 11-36. Também in: A esperança dos pobres vive. Coletânea em homenagem aos 80 anos de José Comblin. São Paulo, Paulina, 2003, p. 609-631.
Viveiros de Castro, Eduardo Batalha. In: Nimuendajú, Kurt Unkel, As lendas da criação e destruição do mundo como fundamento da religião dos Apapocúva;Guarani, São Paulo, EDUSP/Hucitec, 1987, p. XXXIII.




VIII Encuentro Continental de Teología India [Panajachel, Guatemala, 26-30.09.2017]


“Se encontraron y juntaron sus palabras y sus pensamientos” (Popol Wuj)
“Y la Palabra se hizo carne y puso su tienda entre nosotros” (Juan 1:14)



Mensaje final


A nuestras hermanas y hermanos de los pueblos originarios del mundo - A nuestras hermanas y hermanos unidos por la fe en Jesucristo - A todas nuestras hermanas y hermanos que sueñan y luchan por un mundo donde todos quepamos con dignidad y justicia

Amanece nuestro encuentro en un día, Jun Tz’ikin, cuando se teje la Palabra, y los pájaros anuncian la llegada de los hermanos del Cono Sur, la Amazonía, los Andes, el Caribe, Mesoamérica, los hermanos del Consejo Latinoamericano de Iglesias y solidarios de Europa. Con el olor de la albahaca, el pom, el mate y el cacao; con el sonido del tum, el caracol, el kultrun, la marimba y las maracas; en medio de las ofrendas de nuestros pueblos se va formando el altar. Nos reunimos, del 26 al 30 de septiembre de este año, en el lugar que nuestros hermanos mayas llaman Uk’u’x kaj-Uk’u’x ulew (Corazón del cielo-Corazón de la tierra). La lluvia, el sol y el frío nos arroparon al igual que la brisa del lago de Atitlán, que simboliza el paso del sufrimiento y el dolor del pueblo maya a su refundación y de todos nuestros pueblos.

Fuimos convocados por el Gran Espíritu y hemos respondido desde las cuatro esquinas de Abya Yala. Trajimos nuestra palabra y la palabra de nuestras abuelas y abuelos. Presentamos nuestras flores, espinas y frutos, lo que vimos y sentimos, lo que oramos, proclamamos y denunciamos:

Amaneció el primer día, Kieb’ Ajmaq. Recordamos cómo expresaban, cómo analizaban nuestros abuelos la realidad, qué rescatamos de sus prácticas. “El dolor de tu hermano es mi dolor. Nuestra lucha es de hermandad, de igualdad”, relata una hermana guna sobre la palabra sagrada de Ibeler. También analizamos nuestra realidad de hoy con el canto, la danza, los ritos, los idiomas; con el teatro, la oración, bendiciones y escritos, con todo ello fuimos exponiendo nuestro análisis y denuncias de hoy: asesinatos, impunidad, amenazas por todas partes a nuestros territorios, mega proyectos hidroeléctricos y mineros devastadores, leyes contra la vida, gobiernos serviles del neoliberalismo, destrucción de la madre naturaleza con agronegocios, venenos y transgénicos, criminalización de líderes y luchas sociales. Pero también, resistencia de mujeres y ancianos, revitalización de ritos que consolida la identidad, el servicio de hermanos que fortalece a muchos.

Y amaneció el día segundo, Oxib’ No’j: bebimos de la sabiduría de nuestras grandes sabias y sabios, que hoy nos ayudan para encontrar los caminos de Dios. ¿Qué símbolos, qué signos, qué formas, qué palabras, qué luces traemos desde nuestros pueblos para iluminar la oscuridad de las sociedades en que vivimos? Esa fue nuestra tarea.

Enriquecidos con la fuerza espiritual originaria, que nos abrió el corazón y nos reafirmó que Dios camina con nosotros, hablamos de nuestras luchas por la armonía de la vida, del compartirnos en especial con los pobres y enfermos, de la comunidad organizada con actitud de servicio, de la solidaridad con los migrantes, de la unidad en la diversidad. Son valores contrarios a la sociedad neoliberal y que nos ayudan a todos –indígenas y no indígenas- a superar las terribles y sistemáticas amenazas que matan y destruyen nuestros pueblos y a la Madre Tierra. Nuestro trabajo comunitario se inspira en la palabra sagrada sobre la organización de las hormigas-arrieras. Debemos ser valientes colibríes para enfrentar a los grandes enemigos. Los sueños, la danza, los cantos nos dan fuerza para llegar al fondo de estas verdades.

Aclareció el día tercero, Kiejeb Tijax: Vimos y sentimos, recordamos y reconocemos cómo nuestros pueblos asumieron compromisos para vencer el mal y vivir los ideales de sus culturas. También qué compromisos hace falta asumir –o continuar asumiendo- hoy para no permitir que destruyan nuestra tierra; cómo transformar esa realidad de muerte en que vivimos, cómo caminar hacia la construcción de nuestra tierra sin mal.

Son innumerables los retos y compromisos que tenemos hacia adelante. Gracias a nuestro Dios, Madre-Padre, son muchas las cosas que ya estamos haciendo. Creemos que hay algunos compromisos imprescindibles que hoy reafirmamos:

Como pueblos originarios:
1.  Seguiremos profundizando en la sabiduría ancestral (cantos, danzas, rituales, la palabra sagrada de nuestros abuelos) y compartirla con nuestros jóvenes y niños.
2. Fortaleceremos el valor y la participación de la mujer buscando la de justicia género en nuestras comunidades.
3. Mantendremos el diálogo comunitario para mejorarnos y unirnos más. Huir de la división como de la peste.
4. Entregaremos nuestras flores a los pastores de nuestras iglesias.

Como hermanos no indígenas:
1.  Seguiremos acompañando, asumiendo como nuestra, la suerte de los pueblos originarios.
2.  Presionaremos a los gobiernos para que reconozcan, respeten y garanticen los territorios y los derechos de los pueblos indígenas.
3. Denunciaremos ante los organismos internacionales las violaciones, criminalizaciones y violencias a la vida y dignidad de los pueblos indígenas y de los pueblos en aislamiento voluntario.

Todos juntos, como hermanos:
1.  Construiremos alianzas y redes, con respeto y tolerancia, para lograr la vida plena para todos.
2. Denunciaremos las amenazas del sistema perverso en que sobrevivimos (por ejemplo, la desaparición de los 43 jóvenes de Ayotzinapa y el genocidio del pueblo guaraní-kaiowa).
3.  Trabajaremos profundamente en la reconstrucción de nuestra casa común, defendiendo los territorios de los pueblos.
4. Haremos procesos serios de diálogo interreligioso que nos hermanen y nos enriquezcan.
5. Trabajaremos por descolonizarnos todos como iglesias y sociedad.

En la esperanza y resistencia de los pueblos, tejeremos con estos y otros bejucos e hilos, el petate y el bordado del futuro de la humanidad, según la Palabra de Dios que nos ha sido entregada. Que el Corazón del cielo-Corazón de la tierra nos dé la fuerza para seguir peregrinando juntos hacia la plenitud de vida.

Delegação brasileira

¡Mientras luchamos, soñamos, danzamos y cantamos, contribuimos a la llegada de los cielos nuevos y la tierra nueva!
Panajachel, Joob’ Kawok, Oxlajuj B’aktun, Maj Katun, Oxib Tun, Kajlajuj Winal, B’elej’lajuj Kin, Kieb’ yax (año 5,132 del calendario largo maya)

30 de septiembre de 2016.

El Popol Vuh - Versión Animada en Español




História da Criação dos Maya

Indígenas Guarani-Mbya padecem no RS


“É preciso não ter ilusões na decisão da justiça. É uma justiça de classe, uma justiça dos latifundiários. E, apesar de que esse é o seu mais clamoroso escândalo, o furto de terra mais abjeto, o Supremo Tribunal Federal não dará ganho de causa aos índios. Alimentar ilusões nesse sentido é desarmar os lavradores pobres e os colonos...”

Jorge Amado em “Os Subterrâneos da Liberdade – Os Ásperos Tempos”


Testemunho missionário de dom Franco Masserdoti - 10 anos se passaram desde o dia de sua ressurreição



Em memória
de Dom Franco Masserdotti

Dom Franco morreu como presidente do Conselho Indigenista Missionário/Cimi (1999-2006) em exercício, como ciclista atropelado e como bispo de Balsas. Mas, ele não era somente bispo de Balsas. Em sua vida puxou muitas balsas, cada uma carregada com causas e casos que lhe foram confiados na necessidade da travessia missionária e na imprevisibilidade de sua biografia, exatamente, como o poeta canta: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Quando a Assembleia do Cimi, em 1999, elegeu D. Franco como seu presidente, ele era bispo jovem, com apenas três anos no cargo, mas missionário carimbado nas múltiplas tarefas que exerceu pela sua congregação comboniana e a Igreja universal. Já na época era um representante da “Igreja em saída”, preconizada pelo Papa Francisco. Nós do Cimi sabíamos, que na balsa da vida deste jovial e alegre missionário caberia ainda a causa indígena, uma causa pesada numa sociedade que considera os povos indígenas como um estorvo para o progresso.

Dom Franco Masserdotti assumiu a causa indígena na perspectiva de seu lema episcopal: “Para que tenham vida”. Assumiu a causa indígena com a suavidade de seu jeito amigo e com a leveza do peregrino, que lhe deu entre alguns de nós o apelido de “o pega-leve”. Vez por outra vimos D. Franco sabiamente indignado, mas nunca com uma “ira santa” contra dos inimigos da causa. Nas reuniões do Cimi, muitas vezes correu aos fundos da sala, atendendo pelo seu celular a uma das múltiplas causas que o interpelavam, interromperam e, urgentemente, solicitavam. Dom Franco deixou-se interromper por pobres, índios, aflitos. Mesmo quando não teve a possibilidade de intervir, nunca negou a graça de escutar e consolar.

Com todas essas “interrupções” de sua travessia, não perdeu a precisão da navegação. No Cimi insistiu muito na confecção de um Plano de Pastoral para que no meio das lutas indígenas sempre se dê “a razão da esperança” (cf. 1Pd 3,15) contida no dia a dia da pastoral indigenista. Pela insistência de D. Franco, a Assembleia Geral do Cimi de 2005 aprovou esse Plano de Pastoral no qual o Cimi procura prestar conta dessa esperança, de forma articulada, para si mesmo, para a Igreja do Brasil e para todos que acompanham esse trabalho com simpatia e solidariedade. Na apresentação desse Plano, D. Franco pediu “que Deus ilumine e abençoe a caminhada do Cimi a serviço do Reino”!
Querido D. Franco, irmão da caminhada! A partir das suas balsas você sempre olhou para além-fronteiras e para a terra firme que agora alcançou. Novamente é sua vez de interceder ao lado do companheiro-mártir de sua congregação, Pe. Ezequiel Ramin, e face a face com o bom Deus pela iluminação das nossas pastorais e pela firmeza nossa na defesa dos povos indígenas!

Brasília, 17 de setembro de 2016  
Paulo Suess, assessor teológico do Cimi

Travessia, não sem esperança




O juramento sinodal: caminhar juntos
No dia da derradeira votação do impeachment, 31 de agosto, bem cedo, embarquei na cidade do México, no avião da Copa, com a frágil esperança de uma vitória do bom senso e da justiça. Não foi por admiração ou gratidão à presidenta Dilma que nos pronunciamos contra à substituição do voto popular das eleições pelo voto elitista do Senado. Durante seu mandato, a presidenta deposta não foi a melhor interlocutora dos povos indígenas e dos movimentos sociais. Mas, as perícias jurídicas não confirmaram a criminalidade das pedaladas e dos créditos suplementares que serviram de pretexto para o impeachment. Nós da pastoral popular nos pronunciamos contra a substituição do voto das urnas pelo voto do Senado porque essa substituição não estava no script dos constituintes de 1988 e ameaça o futuro democrático do país.

Travessia com esperança
Doravante, cada eleição das urnas está ameaçada por uma segunda votação no Senado. Sempre haverá senadores, agora coma experiência da toga de juízes, em busca de um bode expiatório que permite redimir, não o povo, mas um bom número de senadores dos seus escândalos comprovados. Seu foro privilegiado permite metamorfosear incendiários em bombeiros.

Frida Kahlo (1907-1954)
No México, em momentos vagos entre um Simpósio na Universidade Intercontinental e um Simpósio com ex-alunos de São Paulo, visitei a casa azul de Frida Kahlo (1907-1964), onde a pintora se encontrou com Trotsky e intelectuais da época. Alguém me lembrou do Coletivo Feminista “Não me Kahlo”. Diante das pendências da vida, contudo, não sem esperança, Frida Kahlo me permite construir uma ponte às pendências da nossa democracia “sofrida, mas não me calo”.


FRANCISCO, JESUS E AS MULHERES


Frei Betto

O papa Francisco nomeou uma comissão para analisar se as mulheres devem ter acesso ao diaconato, como já ocorre com homens solteiros ou casados. Diácono ocupa, na hierarquia, um grau abaixo do sacerdócio. Pode presidir matrimônios e batizar, mas não celebrar missa. Havia diaconisas na Igreja primitiva.
Em muitos países, inclusive no Brasil, já há religiosas que, autorizadas pelo bispo local, presidem matrimônios e celebram batismos, embora não sejam diaconisas.

Francisco é muito hábil. Em vez de implodir o prédio com dinamite, prefere demoli-lo tijolo a tijolo. É o que faz ao mexer em temas que, há séculos, estavam congelados pelos tabus que envolvem a doutrina católica tradicional: recasamentos, acesso de divorciados aos sacramentos, homossexualidade, celibato obrigatório, corrupção na Cúria Romana, punição rigorosa a pedófilos etc.
Não há fundamento bíblico para excluir mulheres do sacerdócio, e até do direito de serem bispas e papisas. O grande obstáculo é a cultura patriarcal predominante nos primeiros séculos do cristianismo e ainda em voga na Igreja Católica.
Mateus aponta, na árvore genealógica de Jesus, cinco mulheres: Tamar, Raab, Rute e Maria; e, de modo implícito, a mãe de Salomão, aquela "que foi mulher de Urias". Não é bem uma ascendência da qual um de nós haveria de se orgulhar.
Viúva, Tamar se disfarçou de prostituta para seduzir o sogro e gerar um filho do mesmo sangue de seu falecido marido. Raab era prostituta em Jericó. Rute, bisavó de Davi, era moabita, ou seja, pagã aos olhos dos hebreus. A "que foi mulher de Urias", Betsabeia, foi seduzida por Davi enquanto o marido dela guerreava. E Maria, mãe de Jesus, também não escapou das suspeitas alheias, pois apareceu grávida antes mesmo de se casar com José. Como se vê, o Filho de Deus entrou na história humana pela porta dos fundos.

Jesus se fez acompanhar pelos Doze e por algumas mulheres: Maria Madalena; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana “e várias outras”, diz Lucas (8,1). Portanto, Jesus nada tinha de machista. E frequentava, em Betânia, a casa de suas amigas Marta e Maria, irmãs de Lázaro.


O primeiro apóstolo foi uma mulher: a samaritana que dialogou com Jesus à beira do poço de Jacó e, em seguida, saiu a anunciar que encontrara o Messias. A primeira testemunha da ressurreição foi Madalena. E ao curar a sogra de Pedro, Jesus demonstrou não associar sacerdócio e celibato. Pedro era casado e nem por isso deixou de ser escolhido como o primeiro papa.
A misoginia é, na Igreja Católica, uma síndrome injustificável, sobretudo se considerarmos que em comunidades rurais e de periferias urbanas são as mulheres que predominantemente conduzem a atividade pastoral. Hoje, felizmente, várias mulheres casadas detêm, inclusive no Brasil, o título de doutoras em teologia.

A teologia de meu confrade Tomás de Aquino data do século XIII e ainda serve de alicerce à doutrina oficial católica. Hoje, requer atualizações, como no quesito mulher, considerada um ser ontologicamente inferior ao homem. Razão pela qual o escravo liberto pode ser sacerdote, a mulher não.
Não há um só caso nos evangelhos em que Jesus tenha repudiado uma mulher, como fez com Herodes Antipas, ou proferido maldições sobre elas, como fez com os escribas e fariseus. Com elas, mostrava-se misericordioso, acolhedor, afetuoso, e exaltava-lhes a fé e o amor.
É chegada a hora de a Igreja assumir o seu lado feminino e abrir todos os seus ministérios às mulheres. Afinal, metade da humanidade é mulher. E a outra metade filho de mulher.


O sangue de Meruri: O martírio de Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo há 40 anos

TRANSFORMAÇÃO DO PARADIGMA MISSIONÁRIO
O martírio de Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo (1976-2016)
Paulo Suess
            O Papa Francisco recupera passo a passo o significado da catolicidade da Igreja que é ser universalmente um sinal de contradição. Ao mesmo tempo que ele rompe com muitos traços do provincialismo eclesiástico de inspiração eurocêntrica, fortalece as Igrejas locais e o princípio da sinodalidade. Essa atenção para o mundo local e para a diversidade nas microestruturas é um contraponto para a globalização uniformizada das mercadorias e da mídia de um sistema que não simplesmente explora e oprime, mas mata (cf. EG 53). Pela sua necessidade de crescimento e acumulação esse sistema matou também o missionário Lunkenbein e seu defensor, o Bororo Simão Cristino, e continua matando até hoje as lideranças indígenas.

1. Novo paradigma missionário
           
15.07.1976: Velório em Meruri/MT
               O Concílio Vaticano II (1962-1965) ajudou na reformulação do trabalho missionário junto aos povos indígenas e a todos os setores, vítimas de exploração, exclusão e desigualdade social. Na sua segunda vinda ao Brasil, em 1970, o missionário Rodolfo não veio mais para salvar as almas dos Bororo no interior de um projeto desenvolvimentista e assimilacionista, mas para propor o resgate de suas vidas e contribuir para a construção de uma perspectiva de esperança. Muitos jovens, leigos e religiosos, lutaram para colocar em prática esse novo paradigma da missão em suas Igrejas locais, Congregações e na construção dos rumos pastorais do próprio Cimi.
            O Cimi, fundado em 23 de abril de 1972, aprendeu do magistério latino-americano pós-conciliar que a missão não pode servir a dois senhores. A geração dos jovens que foi para as aldeias indígenas recusou-se a viver o seguimento, engessado por virtudes secundárias da pequena burguesia como pontualidade, parcimônia, obediência e limpeza. Aceitaram essas virtudes secundárias somente a serviço de outras virtudes maiores como justiça, solidariedade, tolerância, simplicidade e despojamento em prol da vida ameaçada dos povos indígenas. Essa geração pós-conciliar contrariou os interesses do latifúndio, do grande capital e do modelo de desenvolvimento implantado no país. Por não caber em sistemas uniformizados de competição e crescimento que visam lucro e poder, a causa indígena é um sinal de contradição e a história dos seus defensores é marcada por assassinatos ou, recentemente, por CPI´s para despistar a atenção da sociedade brasileira dos verdadeiros problemas.

2. Primeiros passos rumo à Missão
           
             Rodolfo Lunkenbein (1939-1976), alemão de nascimento, salesiano por opção e, com a graça de Deus, mártir em terras indígenas, foi, pelas duas estadias em épocas diferentes no Brasil, um missionário pré e pós-conciliar. Nascera como filho de pequenos lavradores no dia 1º de abril de 1939, em Döringstadt, no sul da Alemanha. Depois de descobrir uma biografia de Dom Bosco, com 11 anos, queria estudar no internato salesiano de Bamberg. A família não tinha os recursos para custear o sonho do filho, que queria ser missionário. Finalmente, pela mediação do pároco, já com 14 anos de idade, em 1953, foi aceito no aspirantado de Buxheim, onde foi aluno do colégio Marianum de 1952 a 1958. Os que conheciam “Lunke”, como foi chamado pelos colegas da escola, o descrevem como um jovem alegre, aberto, piedoso.
            Em 1958, o novo inspetor salesiano do Mato Grosso trouxe de sua terra natal, da Alemanha, um grupo de jovens missionários e seminaristas ao Brasil, entre os quais se encontrava Lunkenbein, que logo no ano seguinte fez seu noviciado em Pindamonhangaba (SP). Seguiram os estudos de filosofia e formação salesiana em Campo Grande (1960/1962). Entre 1963 e 1965 foi destinado para a Missão Salesiana de Meruri/MT, onde fez seus anos práticos como professor e educador com aulas para as crianças dos Bororo, dos fazendeiros e dos posseiros da região. Ainda encontrou tempo para mostrar suas habilidades para consertar motores e máquinas da missão, símbolos do progresso civilizatório e da missão desenvolvimentista.
            Ninguém falava ainda de demarcação da terra dos Bororo, os mesmos Bororo que Claude Lévi-Strauss, 40 anos antes tinha visitado. O antropólogo ilustre dedica elogios generosos e críticas severas à Missão Salesiana da época. Elogios, por ter junto com o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) conseguido acabar com os conflitos entre índios e colonos e por ter realizado “excelentes pesquisas etnográficas”. Críticas, ao chamar a atividade missionária dos discípulos de Dom Bosco “um empreendimento de extermínio metódico da cultura indígena”. Lévi-Strauss, que entre 1935 e 1939 era professor de sociologia na Universidade de São Paulo (USP), admite que esse extermínio não foi completo. Conta o antropólogo, que seu intérprete e principal informante na aldeia de Kejari, tempos antes tinha sido levado pelos missionários à Roma. Foi apresentado ao Papa por causa de suas habilidades bilíngues que demonstrariam o sucesso catequético da missão. Mas, depois do retorno à sua aldeia, conta o professor, o índio sofreu “uma crise espiritual, da qual se saiu reconquistado pelo velho ideal bororo: foi instalar-se em Kejari, onde desde há dez ou quinze anos, seguia uma vida exemplar de selvagem. Inteiramente nu, pintado de vermelho, com o nariz e o lábio inferior trespassados pela pequena barra e um adorno labial, o índio do Papa revelou-se como um maravilhoso professor de sociologia bororo” (Lévi-Strauss, p. 203). O antropólogo da França, pelo seu livro “Tristes Trópicos”, deu fama aos Bororo, o missionário da Alemanha ajudou na recuperação de seu território e deu a sua vida.